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Feridas de uma paisagem eterna

                                

Alguns traumas não existem para serem superados, ou contornados, muito menos resolvidos.

Alguns traumas surgem como a sombra de um cão fiel. Um cachorro que acompanha o ser humano em todos os cantos e lugares, uma sombra que gruda como ímã. Algo que não comporta a possibilidade de superação.

"Canadá", romance do escritor norte-americano Richard Ford que acaba de ser lançado pela editora Estação Liberdade, percorre os corredores desses traumas que grudam nas pessoas como sombras que não largam o osso. Levanta a possibilidade de que existe uma farsa na ideia de que tudo pode ser superado.

A obra está fundamentada numa das características da literatura norte-americana: a narrativa de grandes extensões temporais e espaciais. Narra a trajetória de uma família comum que acalenta ao ideia do sonho americano e acaba caindo nos braços da tragédia.

Os gêmeos Dell e Berner vivem numa família normal. O pai é um ex-militar vendedor de carros, a uma mãe é dedicada professora. Tudo parece legal e bacana até o dia em que o pai, inspirado em pequenas falcatruas, decide resolver todos os problemas econômicos da família assaltando um banco.

Sem nenhuma experiência no ramo, cria um plano infalível e arrasta a esposa como cúmplice. Tudo escondido dos filhos com quinze anos de idade. Mas o plano não se revela tão infalível assim e, após alguns dias do assalto bem sucedido, a polícia invade a cada da família e arrasta o pai e a mãe para a cadeia.

De um dia para outro, Dell e Berner descobrem que os pais roubaram um banco e devem passar décadas e décadas na cadeia. Para completar, os dois devem seguir obrigatoriamente, de acordo com a lei, para alguma instituição social sob a tutela do Estado.

Atordoados pela tragédia, cada um dos irmãos segue um rumo diferente. Berner foge de casa e desaparece no mundo. Dell é arrastado por uma amiga de sua mãe para o Canadá de maneira ilegal.

As consequências do destino se revelam límpidas: a separação será pelo resto de suas vidas. Nenhum deles, até o final da existência, terá a possibilidade de um reencontro. Um vácuo brutal e eterno é instalado na família. Pais e filhos separados pelo crime. Marido e mulher separados pela cadeia. Irmãos separados pela situação. "Canadá" é narrado por Dell, 50 anos depois do trauma.

Vivendo numa pequena cidade fantasma do Canadá, o jovem começa a trabalhar num decadente hotel de caçadores de patos e gansos. No lugar vive na companhia de um índio mestiço e o dono do hotel. Cada um, de maneira distinta, oferece uma visão do mundo para Dell. E é exatamente nesse momento que um novo crime surge diante de seus olhos. Uma nova experiência que reforça a opção por uma visão solitária no mundo.

Imerso numa solidão voluntária, Dell percorre, ao longo da vida, a construção de uma leitura particular do mundo e das relações pessoais. O trauma cola em sua pele como um cão agarra um osso e tudo passa a ser determinado a partir dessa experiência. Feridas sem cura assombrando a paisagem.

Um dos aclamados romancista da literatura norte-americana contemporânea, Richard Ford é conhecido pela autoria de "Independência" (Record, 1997), romance que recebeu simultaneamente os prêmios Pulitzer e PEN - Faulkner Award of Fiction. Nascido em 1944 no Mississipi, possui outros quatro livros lançados no Brasil: "O Sal da Terra" (Record, 2009), "Mulheres Com Homens" (Record, 2001), "Vida Selvagem" (Best Seller, 1990) e "O Cronista Esportivo" (Best Seller, 1988).

A proposta narrativa de Richard Ford em "Canadá" está em revelar que a vida de uma pessoa só pode ser desenhada com clareza na velhice. E que tempo e espaço são elementos que determinam a leitura dessa existência. Nesse desenho entram todas as cores, claras e escuras, que fizeram parte de cada sensação, de cada pensamento, de cada fato concreto. E o principal, o mundo interior pode ser mais determinante do que o mundo exterior. Mesmo que os dois se confundam como os lados de uma mesma moeda.

De fato, não pensei nos nossos pais naqueles instantes – no trajeto deles, cruzando o rio até a cadeia. Não me perguntei sobre o banco que teriam supostamente roubado. Por um lado, parecia possível que não tivessem assaltado um, pois haviam sido presos por isso e não tinham alegado inocência. Eu carecia de uma ideia mais desenvolvida sobre assaltos a bancos e as pessoas que faziam isso. Bonnie e Clyde não se pareciam com nossos pais. Na verdade, quando pensava sobre nossos pais nas primeiras horas, não foi me questionando se tinham ou não roubado um banco; o que eu pensava era que eles tinham transposto um muro, uma fronteira, e Berner e eu tínhamos ficado do outro lado. Eu queria que eles voltassem. A vida deles ainda era nossa verdadeira vida, a grande vida. E nós ainda vivíamos entre eles. Mas eles precisariam voltar a atravessar o muro para a vida continuar. Por alguma razão, parecia duvidoso que conseguissem. Possivelmente eu estava em estado de choque. (De "Canadá", de Richard Ford)

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