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Um editor entre sia e Europa

O diretor editorial da Estao Liberdade, Angel Bojadsen, credita parte de bons resultados reduo da inadimplncia

Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo

O nome da editora veio do bairro e do período em que surgiu. A primeira sede ficava na Liberdade, região de tradição japonesa na cidade de São Paulo, em período de reabertura política brasileira, nos anos 80. Mesmo que o endereço atual fique na Barra Funda, e ainda que o catálogo seja repleto de literatura e temas de humanidades de autores de origens diversas, ela nunca deixou de ser conhecida como a casa editorial da cultura japonesa no país.

"Meus best-sellers? 'Musashi', 'Musashi' e 'Musashi'", diz sorrindo Angel Bojadsen, de 58 anos, à frente da Estação Liberdade. "Musashi" é o grande sucesso de vendas da editora e compreende três volumes que romanceiam a vida do famoso samurai do Japão da época dos xoguns, no século XVII. Escrito por Eiji Yoshikawa (1892-1962), foi traduzido para a língua portuguesa por Leiko Gotoda e lançado no Brasil em 1998, a primeira tradução integral da obra no Ocidente.

O catatau permaneceu por muito tempo nas listas de mais vendidos do país e nunca parou de vender com regularidade, em diversas edições, uma delas em caixa luxuosa. No catálogo da Editora Liberdade, há ainda "O Samurai - A Vida de Miyamoto Musashi", biografia histórica escrita pelo americano William Scott Wilson, com tradução de Mauro Pinheiro. "Os leitores pedem uma edição em mangá do Musashi, mas ainda não temos", diz Bojadsen.

Os autores japoneses são o coração da editora, entre clássicos e contemporâneos: o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Yasunari Kawabata (1899-1972) e Junichiro Tanizaki (1886-1965); Haruki Murakami, autor pop que hoje é publicado no Brasil pela Alfaguara, mas tem algumas de suas primeiras obras na Estação Liberdade; Natsume Soseki (1867-1916) e Yasushi Inoue (1907-1991).

"Toda nossa linha japonesa vai bem. Só um ou dois títulos, um pouco menos", diz Bojadsen. "Não consigo vender um contemporâneo francês ou inglês do mesmo jeito." O editor orgulha-se de terem formado uma geração de tradutores do idioma japonês. Num levantamento em 2012, dos 20 mais vendidos da casa, 12 eram japoneses.

De outras culturas, há sobretudo literatura clássica. Da França, André Gide, Victor Hugo, Balzac e Flaubert. Da Alemanha, Goethe e Joseph Roth. Um pouco de América hispânica: entre os lançamentos, uma nova edição de "Paradiso", do cubano José Lezama Lima, em tradução de Josely Vianna Baptista. Incluem-se ainda no catálogo obras do árabe, polonês e afegão. De humanidades, pesos pesados do século XX: Elias Canetti, Jacques Le Goff, Luciano Canfora, Jacques Derrida, Jean Baudrillard, Peter Handke e Peter Sloterdijk.

Num mercado caracterizado pela batalha de best-sellers e a fusão de grandes editoras, a Estação Liberdade, mantendo tal perfil, crescerá 20%, um faturamento que chega a R$ 1,7 milhão (projeção para este ano). Bojadsen quer repetir o feito no ano que vem. "Vamos manter essa dianteira de literatura da Ásia. Além de mais autores japoneses, não só da literatura como da cultura, vamos apostar sempre em mais gente de outros países do Oriente." Entre as novidades, há um chinês e um coreano: "No País do Cervo Branco", de Chen Zhongshi, e "Sukiyaki de Domingo", de Bae Su-ah.

Segundo Bojadsen, para se manter e crescer é necessário ser criativo e ter sorte. No catálogo são 450 livros, 250 com maior circulação. A tiragem média é de 2 mil a 4 mil exemplares. O ritmo ideal de lançamentos são dois por mês. "Esse é o mínimo necessário para se manter como 'player', para ter interlocução nas boas livrarias." O objetivo é chegar a 30 livros por ano. Não vende muito para o governo - as compras governamentais representam 13%, "pouco para uma editora brasileira hoje".

Os bons resultados se devem em parte à redução da inadimplência, que já representou 40% e agora está em praticamente zero. O não recebimento ocorria por conta de uma política de consignação que o fazia distribuir livros por todo o país sem que pudesse conhecer bem a livraria para onde os endereçava. A mudança acabou por reduzir o percentual de participação das livrarias independentes. Antes, mandava títulos para 440 pontos, hoje 70. Se há quatro anos correspondiam a 24%, hoje esse número caiu para 9% das vendas. Ao mesmo tempo, aumentou a importância da rede Livraria Cultura, que tem ampliado sua presença em capitais brasileiras, para os resultados da editora - há vezes em que concentra 1/4 do que é comercializado.

Na trajetória de Bojadsen, a Ásia veio bem depois da Europa. Ele foi uma criança que desde cedo lia mais que as outras. O interesse por outras línguas e viagens relaciona-se com a própria história familiar. De pai búlgaro e mãe alemã vindos no pós-guerra para o Brasil, país então considerado promissor para quem imigrava, Bojadsen aprendeu as primeiras noções dos seus idiomas ainda na infância.

"As editoras parecidas com a nossa, com esse porte e catálogo, já pertencem a um grande grupo", afirma Angel Bojadsen

Anos depois, acompanhando o pai, passou pelo Uruguai, pela França e pelo Canadá, quando aperfeiçoou francês, inglês e espanhol. Em universidade canadense, ingressou nos cursos de história e ciência política. Não os concluiu, para se transferir a Berlim, onde se juntou a um grupo que fazia documentários. Para reforçar os rendimentos, trabalhava como intérprete e recepcionista no hotel. Da Alemanha ia constantemente à Suíça visitar a mãe, que foi ao país após casar pela segunda vez, união que deu a Bojadsen uma irmã que nasceu na Índia. Tios seus residiam em países diversos, da Europa ou da América. Os giros pelo mundo sempre o motivaram.

Na família não havia editor, mas uma escritora. A avó paterna publicou livros na Bulgária e animou salões literários, mas não ficou tão famosa. Dela herdou uma grande estante de madeira que mantém em seu escritório.

Quando retornou ao Brasil depois da temporada alemã, atuou como tradutor na "Gazeta Mercantil". Aí veio a paixão pela edição. Certo dia procurou o artista gráfico, editor e agitador cultural Massao Ohno (1936-2010) para imprimir um livro seu de poesia. Aprenderia com ele a fazer livro.

Àquela altura, a Estação Liberdade já existia. Fundada em fins dos anos 80 por Jiro Takahashi, firmara-se como casa editorial ligada à cultura japonesa. Takahashi primeiro o convidou, em 1993, para ser tradutor (depois editor-adjunto e sócio). Era um período de descapitalização, com a necessidade de obter fôlego financeiro. Assim Bojadsen teve 9%, depois 40%, agora 97%. Quem dividia 50% da editora e hoje reduziu participação para 3% é Edilberto Verza, com longa trajetória no ramo gráfico.

"É uma interlocução imprescindível", diz. Três anos atrás, a Estação Liberdade ensaiou uma joint venture com a Hedra que não foi para a frente. Ainda é cedo para pensar em sucessão, mas o filho Bernardo, de 13 anos, já enveredou pelo ramo. Fez a tradução do francês de dois livros infantis.

Para crescer, ainda há outros planos. Um deles é reintegrar a distribuição, hoje terceirizada. Reduz-se o custo fixo e ganha-se rapidez na reposição, diz. Mas é preciso planejar para que não se perca energia editorial com a operação. Ainda não investiu em "e-books". Também não tem a "máquina azeitada" para vender por internet. Acredita, por fim, que é preciso incentivar a cadeia, mantendo os papéis distintos. "A venda direta não é coisa que se faça na Europa. É mal vista." No máximo, deve apostar num showroom com café, sonho que deseja realizar em breve.

Bojadsen não crê que o cenário está melhor para as independentes e lembra que lá fora a consolidação alcançou nível maior. "As editoras parecidas com a nossa, com esse porte e catálogo, já pertencem a um grande grupo", diz. A cada ano que vai a Frankfurt (Alemanha), que tem a maior feira de livros do mundo, ele diz ouvir dos colegas europeus: "Mas você ainda está só?".

Apesar desse cenário mais competitivo, Bojadsen ressalta que há no exterior políticas menos adversas. Em países como a França, por exemplo, é possível custear quase toda a primeira edição de uma obra relevante, que não seja comercial, por meio das vendas para biblioteca pública. "Paga-se uma primeira edição assim, funciona como um colchão de segurança. Aqui não é da mesma forma. As compras de bibliotecas não são regulares."

Bojadsen já ocupou o cargo de presidente da Libre, Liga Brasileira de Editoras, e uma de suas defesas antigas nas entidades de classe é o preço único, medida praticada em países europeus. "Sem um mínimo de regulamentação, é a lei do mais forte, e isso na cultura sabemos aonde leva", afirma. "Por vezes é preciso proteger o consumidor dele mesmo. Num primeiro momento, ele perde o desconto, mas a 'bibliodiversidade' se mantém." 


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