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Uma conversa com Midori Hatanaka

 A artista plástica Midori Hatanaka

 

O Japão que perdura em mim

 

Os Hatanakas eram uma próspera e culta família de Osaka, no Japão, no início do século XX, quando um trauma ocorrido no ano de 1927 mudaria para sempre o destino de seus descendentes. O patriarca Osatomu era arquiteto, integrante da equipe de uma construtora responsável por uma obra que cedeu ao ter sido levantada sobre um lençol d’água. Houve vítimas fatais no acidente, e o sentimento de culpa foi inevitável na consciência do velho Osatomu. Assim, determinado a partir para o lugar “mais distante possível” a fim de um recomeço, veio parar nos trópicos brasileiros, trazendo consigo a esposa Fuku e o filho Hideo, este com apenas oito anos de idade. “Se o acidente tivesse acontecido em outros tempos, ele teria cometido harakiri”, especula Midori Hatanaka, neta de Osatomu e filha de Hideo, referindo-se ao ritual suicida japonês. 

 

Autora das artes que ilustram as capas dos dez livros de Yasunari Kawabata publicados pela Estação Liberdade, e com uma exposição de suas obras programada para o segundo Festival Cultural Semana do Japão, que ocorrerá na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo entre os dias 18 e 23 de junho, a nissei paulistana Midori conta nesta conversa com a editora um pouco de sua trajetória profissional e quanto as influências japonesas estão presentes em sua vida e em sua arte, percepção que lhe aflorou após uma estada de pouco mais de um ano na terra de seus antepassados, nos anos 1970.

 

Você tem formação em arquitetura. Sempre se interessou por essa área?

Gosto de arquitetura, tanto que sempre trabalhei com arquitetos, não tanto em projetos, mais na parte de administração e apoio. E também dei aula em faculdades de arquitetura, por dezoito anos. Eram aulas bem legais, voltadas para estimular a percepção do aluno. “Você consegue desenhar o percurso da sua casa até a faculdade? Que ícones, ou monumentos, você vê pelo caminho?” Ou: “Vocês conhecem o Masp. São capazes de desenhá-lo de memória?” Uma coisa é você conhecer. Mas e desenhar? Tem gente que fazia aquela estrutura do lado inverso, em vez de longitudinal, fazia na transversal. Então, as pessoas não têm educação visual. A gente pegava algum objeto [como modelo], por exemplo, uma mochila. Nossa, era impressionante notar que a pessoa não tinha noção de proporção. Se a mochila tivesse duas bolsinhas externas, alguns desenhavam as bolsinhas muito pequenininhas, outras faziam bem grandes, então a proporção dessas bolsinhas em relação ao todo se perdia. Para mim foi uma experiência constatar como as pessoas não conseguem ver as coisas, ou não conseguem expressar no desenho o que veem.

 

Era difícil conseguir essa reeducação do olhar por parte deles?

É uma questão de treino. É como dizer “não gosto de música clássica”. Alguns são heavy metal, outros são sertanejos, há os que gostam de pagode. Agora, se você nunca ouviu música clássica, se não tem o hábito de ouvir esse gênero, você “não gosta”? Acho que tudo é educação, você tem que ir educando e ampliando essa percepção em relação a qualquer coisa. É importante você saber ver, ou ver a arquitetura dos outros para propor a sua. Não é copiar, você tem que conhecer para saber como o cara chegou àquela solução. Acho superimportante. Redesenhe a casa de Floyd Frank Wright. E veja a proporção, perceba como ele resolveu, como ficou, e aí você compara a diferença do caminho do desenho, da sua expressão, até a coisa pronta. É preciso ter essa bagagem.

 

E seu apreço por artes plásticas, vem desde cedo?

Sempre gostei, também porque meu pai fazia caligrafia japonesa [shodô]. A gente ampliava os kanjis que meu pai escrevia, não pelo significado em si, mas como desenho mesmo. Acho muito linda essa escrita. E também tínhamos em casa uns quadrinhos que meu avô, arquiteto, tinha pintado. Além disso, com dez anos de idade, eu tinha uma amiga japonesa, e a gente tentava fazer mangás, aquelas mocinhas com olhos imensos. Mas não éramos de inventar as histórias, tentávamos só copiar os desenhos mesmo.

 

E houve um ponto de virada em que as artes plásticas passaram a ser algo mais sério para você?

Basicamente depois que saí da faculdade. Fiz aula de aquarela com Ubirajara Ribeiro, já falecido, um superaquarelista. Fiz também um curso rápido com o Zélio [Alves Pinto], irmão do Ziraldo, também de aquarela. Mas, artisticamente, Ubirajara me influenciou mais, as obras dele são muito lindas. Depois trabalhei como assistente de Newton Mesquita, que era amigo de Takashi Fukushima, contemporâneo meu da escola. O Newton estava precisando de assistente, e eu trabalhei vários anos com ele. Além disso, sou muito fissurada nas gravuras japonesas, principalmente de Hiroshige [pintor japonês, 1797-1858]. Cheguei a fazer algumas releituras de gravuras dele, inclusive na minha última exposição.

 

Como foi a experiência de desenhar as capas de livros de Kawabata para nós?

Eu achava que tinha que ter uma cara oriental. Eu trabalho muito com folha de ouro, e toda essa série de Kawabata são telas que a gente chama de armadas. Utilizo papel-arroz e tinta acrílica na parte da pintura. Então essa era a base, e eu ia trabalhando de acordo com cada livro, cada tema. Todas as telas têm esse brilhozinho, próprio da folha de ouro. Isso deu unidade à coleção. Tudo feito artesanalmente, não por computador.

 

Seu pai era japonês. Você foi educada em nihon-go?

A gente falava um pouco em casa, depois também fomos para uma escola de japonês, então sei ler algumas coisas, mas não tão profundamente a ponto de ler um livro em japonês, por exemplo. Mas eu morei [entre 1976 e 1977] um ano e três meses no Japão, em Osaka, como bolsista, depois da faculdade. Essa volta às origens foi muito importante para mim. Ali você vê quanto é brasileiro. E quanto tem da cultura deles também. E minha avó paterna morou com a gente, era uma pessoa superculta, professora de ikebana. Depois que meu avô morreu, ela trabalhou no Rio de Janeiro como preceptora dos filhos de um cônsul. Meu pai também escrevia muito bem, deu aula de caligrafia, então no dia a dia a gente tinha muito contato com a cultura japonesa.

 

O que mais te marcou durante a estada no Japão?

O respeito à natureza, ao próximo. As casas lá são muito pequenas, as paredes fininhas, e se você faz barulho, o vizinho escuta. Então tem que ter esse respeito. E lá você pode andar na rua despreocupado, não há essa tensão de você precisar se preocupar com sua bolsa no metrô – e o metrô lá é supercheio. E tem metrô para onde você quiser ir: isso é respeito pelo cidadão! Você paga imposto e tem saúde, transporte, educação – educação de alto nível. É isso que todo mundo almeja. Basta ver a diferença em relação a como é aqui. A educação aqui é muito ruim. Minha geração foi extremamente prejudicada, mas o que eu acho imperdoável é que o prejuízo se estende até a geração dos nossos netos. Nas lojas japonesas, eles anunciam alerta quando entra “uma turma de brasileiros”. Isso é horrível.

 

Quais valores japoneses são importantes para você?

Há um artigo muito lindo da Monja Coen da época do tsunami [decorrente do acidente nuclear de Fukushima em 2011] em que ela fala da cultura dos japoneses de respeito pelas vítimas. Não teve saque de casa, de supermercado, nada! Foi todo mundo muito solidário. Todos se ajudando uns aos outros, voluntários para tudo. Trabalharam dia e noite, e logo reconstruíram a estrada pela qual se podia levar os mantimentos aos lugares que estavam isolados. Enfim, respeito, né? Pelo ser humano. Isso eu admiro e reverencio. É da cultura.

 

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 Detalhes de obras de Midori Hatanaka

 

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