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Entrevista com Yoko Ogawa

A autora e capa da edição japonesa de  

 A autora e capa da edição japonesa de "O museu do silêncio". Foto (c) Shinchosha Publishing Co., Ltd. Tokyo

 

Yoko Ogawa, aos 54 anos, está estabelecida como uma das escritoras de maior prestígio no Japão, onde já ganhou praticamente todas as honrarias literárias possíveis. Sua obra também provocou uma febre nos EUA e França, com dezenas de livros traduzidos e centenas de milhares de exemplares vendidos.  O Nobel Kenzaburo Oe disse que Ogawa “é capaz de dar expressão às maquinações mais sutis da psique humana, em uma prosa que é delicada, mas penetrante”. A autora agora chega de vez ao Brasil: seu suspense O Museu do Silêncio será lançado em outubro pela Estação Liberdade – que também prepara um segundo título da autora, a Fórmula preferida do professor, para 2017. Até hoje, só um livro dela havia sido publicado no país: Hotel Íris, pela editora Leya, em 2011, mas em tradução da versão francesa da obra.

Reproduzimos a seguir trechos de uma entrevista concedida por Yoko Ogawa à jornalista Deborah Treisman, na qual a autora conta um pouco sobre a carreira e os escritores que a influenciam:

Muitos dos seus trabalhos parecem lidar com variações e perversidades biológicas. Já li histórias suas nas quais o coração de uma mulher se desenvolve sobre a pele, uma mão nasce do chão, estranhas plantas brilhantes crescem no quarto de um casal, e uma garota é envenenada com um profiterole estragado. Você é fascinada por esquisitices biológicas?

É difícil descrever mudanças na psicologia humana. Mas quando observo atentamente e descrevo mudanças físicas externas, percebo que posso destrinchar problemas internos abstratos. Essa tem sido minha abordagem ao longo da minha carreira.

Você já disse ser atraída pelo perigo e pela violência que existem na superfície da vida cotidiana, bem como por seus detalhes sinistros.

Todo ser humano tem algo de violento interiormente, mas a maioria de nós tenta esconder isso. Da mesma forma, tentamos ignorar os perigos que nos rondam em nossa experiência diária, nos esquivar deles para seguir em frente. Mas, paralelamente, somos todos fascinados por essas coisas “subliminares”, e esse fascínio se torna um estímulo no meu trabalho. Através do processo que chamamos de “livro”, essas coisas que normalmente permaneceriam invisíveis tomam forma – é esse o elemento na ficção que me fascina continuamente.

Como você começou a escrever e a publicar no Japão?

Li O diário de Anne Frank quando tinha catorze anos e percebi que escrever era uma forma de libertação. Minha carreira como escritora começou quando passei a manter um diário. Tentava registrar minhas experiências da forma mais fiel possível, e gradualmente percebi que escrever histórias começa no próprio ato de transformar memórias em palavras. Pouco a pouco, comecei a produzir ficção a partir das anotações que eu trazia nesse diário. Em 1988, ganhei um prêmio voltado a novos escritores concedido pela revista Kaien.

Costuma-se dizer que você integra uma nova geração de escritores no Japão. Você se vê efetivamente como parte de algum grupo em particular?

Não pertenço a nenhum grupo. É função dos críticos e acadêmicos dividir escritores em grupos e aplicar esses rótulos. Sou apenas alguém que faz ficção.

Pregnancy Diary [Diário de gravidez] é apenas sua terceira história publicada em inglês. Você é uma das escritoras mais conhecidas do Japão, vem publicando livros e coleções de histórias lá há dezessete anos, tendo conquistado o prestigioso prêmio Akutagawa. É muito difícil para uma escritora japonesa ser vertida para o inglês?

Para os trabalhos de um escritor japonês alcançarem leitores de língua inglesa ou de qualquer outro idioma demanda-se paixão e dedicação por parte de agente literário, editor e tradutor. Quero que meu trabalho seja publicado em países estrangeiros sob as melhores circunstâncias, de modo que não me importo se isso levar tempo. Parece que, em inglês, as condições agora têm sido favoráveis para publicação do meu trabalho, e sou muito agradecida. Não me parece que demorou tanto tempo para chegar a este ponto. Como dizem, há tempo e lugar para tudo.

Há escritores ingleses ou americanos que influenciam seu trabalho?

Meu trabalho tem sido influenciado por Paul Auster, Steven Millhauser e John Irving. Quando leio Paul Auster, sinto que seus livros não são mero produto de sua imaginação, mas dizem respeito a coisas que existem no mundo real. Um escritor é aquele que descobre algo que já existe no mundo, mas que ninguém havia percebido, e então o expressa em palavras. Esse foi um conceito totalmente novo para mim e que aprendi lendo Auster. Também sou sempre impressionada pela apurada visão da realidade de Steven Millhauser. Seus livros passam a ideia de que realidade não é uma questão de abstrações ou teorias, mas, em vez disso, que ela existe como sendo a soma de vários detalhes modestos, concretos. Aprendi muito com ele sobre onde um escritor deve focar sua atenção. Já com John Irving, sou particularmente atraída pela maneira como ele tende a conduzir uma situação trágica a tal extremo que a torna engraçada. Ou seja, ele nos mostra que aquelas histórias de seres humanos desvirtuados, patéticos e risíveis não são motivo para desespero; elas trazem consigo uma espécie de salvação.

Entrevista publicada originalmente na revista The New Yorker na edição de 26 de dezembro de 2005. Tradução das respostas da autora do japonês para o inglês por Stephen Snyder.

 

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Sobre O museu do silêncio

Em tradução do japonês de Rita Kohl, o livro nos apresenta um narrador incumbido de ajudar na curadoria de um memorial com objetos de pessoas mortas. Ao se envolver cada vez mais com o projeto e sua excêntrica idealizadora, ele se vê navegando tortuosamente pelas fronteiras que separam os vivos dos mortos. Para contribuir para o clima insólito do livro, nenhum dos personagens ou locais é nomeado. O tom das obras de Ogawa varia, mas a autora é mestre da economia narrativa: em O museu do silêncio, transita-se do estranho ao surreal e perturbador, num desenvolvimento tão fluido e cativante quanto engenhoso.

Sobre a autora

Yoko Ogawa é uma escritora japonesa nascida em 1962. Natural de Okayama, capital da província de mesmo nome no Oeste do Japão, ela já ganhou praticamente todas as honrarias literárias de seu país natal (prêmios Kaien, Akutagawa, Yomiuri, Izumi Kyoka e Tanizaki) bem como louros internacionais para suas obras traduzidas. Autora de mais de 20 livros de ficção e não-ficção, Yoko Ogawa é atualmente uma das autoras japonesas mais lidas fora de seu país, com trabalhos traduzidos para mais de dez idiomas.

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