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O corpo no ocidente

Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore discutem a histria da corporalidade na 24 Bienal Internacional do Livro de SP

No dia 3/9, como parte da programação do Salão de Ideias da 24ª Bienal do Livro de São Paulo, as historiadoras Denise Bernuzzi de Sant’Anna e Mary del Priore se encontraram para debater o tema “O corpo no ocidente”. A mediação foi feita por Marina Guzzo.

 

Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de SP

  Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de SP


 

Leia abaixo alguns destaques da conversa:

 

O que é o corpo?

Denise Bernuzzi de Sant’Anna: “Perguntar o que é o corpo é quase como perguntar ‘o que é tempo’. O corpo é um paradoxo, pois é o que temos de mais familiar e também de mais estranho. Nós nascemos com um corpo que nos acompanha por toda a vida, e por isso é familiar. No entanto, quando temos alguma dor ou sensação que desconhecemos, percebemos como o corpo também tem uma dimensão completamente estranha a nós.”

Mary del Priore: “Vejo o corpo por meio dos documentos históricos, quando pratico minhas pesquisas, que brinco dizendo que são minhas ‘conversas com os mortos’. Nessas documentações, temos todos os tipos de registros ligados ao corpo, girando em torno da questão da sexualidade, da higiene e da indumentária, entre outros assuntos.”

 

A beleza

Denise Bernuzzi de Sant’Anna: “Ao longo do século 20, a beleza, que há séculos era vista como ‘dom’ divino e um dever sobretudo feminino, passou a ser um direito que todas as mulheres 'devem ter'. Por volta de 1900, os objetos de beleza de uma mulher tendiam a caber sobre sua penteadeira, no quarto. Hoje em dia os objetos e produtos de beleza se diversificaram e se multiplicaram, nos acompanham em todos os lugares ao longo do dia. E ainda há as ‘instalações’ de beleza, como as academias, clínicas etc. A beleza passou a ser um gênero de 1ª necessidade. O livro Gordos, magros e obesos, mostra como o ‘gordo’ e o ‘magro’, ao longo do último século mudaram de significado. São figuras antigas no humor e na propaganda e, no entanto, eles tenderam a virar focos de problematizações, tanto estéticas quanto científicas. Ao mesmo tempo, o peso corporal se transformou numa parte da identidade de cada um. Duas ou três gerações atrás, pouquíssimas pessoas sabiam dizer o próprio peso, e a frequência com que nos olhávamos no espelho era muito menor. Nunca uma sociedade se viu tanto como a nossa.”

Mary del Priore: “Já no século 16, na Europa, com o início da imprensa, começam a circular algumas publicações de ‘segredos de beleza’. Em geral, estes segredos eram ligados à prevenção de doenças de pele. Gordura de cavalo nos cabelos, esfregar pérolas para clarear os dentes, banhos de leite de cabra e outras fórmulas mais estranhas circulavam. A beleza passa a ganhar importância. Ao mesmo tempo, a busca pela beleza ainda era considerada um pecado, chegando ao ponto de a Igreja recomendar aos homens que evitassem casamentos com mulheres bonitas. No Brasil, as mulheres desde sempre cuidaram muito de seus cabelos, usando olhos naturais como o de coco, makassar e copaíba. Com a desodorização da higiene pessoal e dos corpos, esse óleos de odores fortes caíram em desuso.”

 

Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de São Paulo

 Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de SP

 

 

Identidade brasileira, beleza masculina e indústria farmacêutica

Denise Bernuzzi de Sant’Anna: “Quando as casas ainda ficavam à luz de velas, os óleos de cabelo serviam para realçar o brilho capilar. Mas com a luz elétrica e os desenvolvimentos na higiene, o aspecto ‘lustroso’ da cabeleira mudou de significado. A ideia de que um homem poderia embelezar-se ainda estava recoberta por tabus, embora eles o fizessem. A partir dos anos 1960, com a presença de balanças em farmácias e até nas casas, homens e mulheres tiveram a oportunidade de conhecer uma nova experiência: aquela de controlar o próprio peso. Também com a diminuição do uso dos chapéus e com as cabeças expostas, os cabelos dos homens passaram a merecer novos cuidados. Outro aspecto da fisionomia que ganhou o campo científico desde os anos 1960: as rugas. Foi nesta época que os congressos internacionais de cosmetologia ficaram famosos. Mais tarde, surgiram os dermocosméticos, produtos que ficam numa fronteira entre a medicina e cosmética. A maquiagem, que disfarça as imperfeições, deixaria de ser suficiente; tornam-se necessários os produtos para curar os ‘problemas’ estéticos, produtos cujo uso é um bem em si.”

Mary del Priore: “Duas coisas mudam a forma como víamos a beleza masculina: os esportes (com, por exemplo, o estabelecimento de clubes esportivos no Brasil pelos imigrantes) e o cinema, com suas representações e expressões da virilidade masculina. Com isso, o homem se dá conta de sua corporalidade. Outro conceito importante quando falamos da indústria de produtos para o corpo é que este corpo é um ‘corpo de classe’. Produtos, dietas, rotinas de exercício, tudo isso são privilégios que têm custos caros.”

 

Feiura

Mary del Priore: “Sempre me atraí pela teratologia, ou pelo estudo daquilo que é considerado monstruoso. Tradicionalmente se associavam más-formações ou marcas em crianças a pecados que tenham sido cometidos pela mãe. Uma falha moral da gestante, portanto, se traduz em uma modificação na criança, como punição. A feiura e a beleza tinham lugares um pouco diferentes. Se você pegar a poesia de Gregório de Matos, no século 17, não há descrições da beleza física das heroínas. Não havia, portanto, um padrão que se considerava desejável, fora algumas menções a, por exemplo, ter mãos e pés bonitos. A partir do início da fotografia é que se vê referências mais padronizadas da beleza. Hoje em dia também há uma tendência de fim da ‘biodisputa’ entre belo e feio”

Denise Bernuzzi de Sant’Anna: “Hoje em dia a disputa não está mais entre ‘belo’ e ‘feio’. Com a nova lógica de mercado e de administração do corpo, o ‘feio’ sempre pode investir em si mesmo e se tornar melhor, mais ‘vendável’. Até as palavras sumiram. Em um comercial de Minâncora anunciava-se que a pomada acabava com a ‘feiura’. Hoje em dia, a própria palavra foi excluída do vocabulário. Ser feio, portanto, não é ruim. O que se tornou imperdoável, no entanto, com a ascensão do discurso da saúde e do bem-estar é aquele que ‘não se cuida’, já que o corpo é visto como algo que devemos melhorar e aprimorar constantemente.”

 

“Não tenho corpo para isso”: discursos sobre o corpo

Mary del Priore: “Olhando os dicionários de época, vemos que as formas de falar sobre o corpo mudaram muito. A palavra ‘seio’, em um dicionário do século 18, define como ‘o aparelho que cozinha o leite materno’. Havia um grande pudor nos discursos do corpo, que jogava vergonha até sobre o ato de olhar o próprio corpo nu ao espelho. A partir da 2ª Guerra, quando chegam produtos de higiene vindos dos EUA, de papel higiênico a sabonetes e desodorantes, isto muda. O corpo como objeto de sedução e consumo deve ser olhado para que se usem produtos. Inclusive, com a maior higienização dos corpos, novas dinâmicas sexuais se tornaram possíveis.”

Denise Bernuzzi de Sant’Anna: “Muito boa a frase ‘eu não tenho corpo’. Se pensarmos que é uma frase atual, usada quando alguém se recusa a fazer algo, podemos achar equivalentes antigos em frases como ‘minha profissão não permite’, ‘ minha família não aceita’, mas hoje é o próprio corpo que é usado para dar esses limites. Sobre a intimidade e a higienização, isso foi muito mudado pela indústria a partir da década de 1950. Antes dos absorventes femininos descartáveis, por exemplo, as mulheres usavam absorventes de pano que precisavam ser lavados e cuidados. As peças de pano faziam parte do cotidiano das famílias, que acompanhavam seu uso e lavagem, portanto a menstruação estava contemplada nos discursos e nas vidas das famílias. Com os absorventes descartáveis, bem como a necessidade de uma higiene mais minuciosa, a menstruação fica restrita ao espaço individual de cada mulher. Tanto que até falar sobre esse assunto hoje em dia é considerado de mau gosto.”

 Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de São Paulo

 Marina Guzzo, Denise Bernuzzi de Sant'Anna e Mary del Priore na 24ª Bienal do Livro de SP

 

 

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Gordos, magros e obesos – Uma história do peso no Brasil será lançado em evento na Livraria da Vila, em São Paulo, no dia 15 de setembro, a partir das 18h30. Às 20h, a autora recebe a professora e pesquisadora Eliane Robert Moraes para um debate sobre o tema.

 

Veja mais informações sobre o evento no link: http://goo.gl/c8bZrg 

 

 

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