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II Concurso de Ensaios de Literatura Coreana

Veja como foi o evento e leia os textos vencedores

A Casa das Rosas, em São Paulo, recebeu em outubro a cerimônia de premiação que marcou o fim das atividades do II Concurso de Ensaios de Literatura Coreana. O concurso é realizado pelo Literature Translation Institute (LTI–Korea), órgão que fomenta e divulga literatura e cultura sul-coreana pelo mundo por meio de diversas ações. Os parceiros desta edição foram o Grupo de Estudos Coreanos da Universidade de São Paulo  (coordenado pela Profa. Dra. Yun Jung Im e pelo Prof. Dr. Antonio Menezes), o Instituto Poiesis  e a Editora Estação Liberdade. Além do anúncio dos vencedores e entrega dos prêmios, o evento contou também com debate sobre literatura coreana e apresentação de gayageum (cítara coreana).

 

 A profa. Yun, do Grupo de Estudos Coreanos da USP, apresenta o concurso.

A profa. Yun, do Grupo de Estudos Coreanos da USP, apresenta o concurso.

 

O livro escolhido neste ano foi Sukiyaki de domingo, da autora Bae Su-ah, publicado no Brasil em 2014 pela Estação Liberdade, com tradução de Hyo Jeong Sung. A autora representa uma nova geração da ficção coreana, com preocupações e aspirações mais cosmopolitas do que tradicionais. Bae Su-ah trabalhava como policial e não teve estudo formal em literatura, mas foi gradualmente se dedicando à escrita, até poder largar o antigo emprego e viver da literatura. Ela também é tradutora — uma de suas empreitadas recentes foi verter O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, para o coreano (partindo da versão alemã da obra — ela atualmente vive na Alemanha com o marido).

Antes do início do debate, uma vídeo-mensagem de Bae Su-ah para os presentes foi exibida no telão. No recado, que a autora gravou em sua casa, ela falou sobre seu trabalho de tradutora e sobre como, ao traduzir, ela se sente adentrando o mistério e conectando-se ao mundo da língua. Ela disse que todos os amantes da literatura estão conectados, independente da língua em que se expressam, e pediu a todos que vivessem suas vidas sempre próximos do amor pela literatura.

 

 A autora Bae Su-ah gravou uma vídeo-mensagem para os leitores brasileiros.

A autora Bae Su-ah gravou uma vídeo-mensagem para os leitores brasileiros. 

 

Os jurados do concurso foram o professor de literatura Jorge de Almeida, o crítico literário Manuel da Costa Pinto e o poeta Tarso de Melo. Os dois últimos estiveram presentes na discussão que precedeu o anúncio dos vencedores, junto com a professora e tradutora Yun Jung Im.

Uma das primeiras coisas constatadas sobre Sukiyaki de domingo no debate foi o fato de a miséria estar em primeiro plano no livro. O que se nota é que por trás da pujança da Coreia do Sul há um sofrimento ligado à dificuldade de conciliar a tradição com a contemporaneidade e à frustração daqueles que não conseguem compartilhar desta riqueza tão alardeada. Um exemplo de materialização dessa miséria foi dado por Tarso de Melo, que, em visita à Coreia do Sul, notou que os trabalhos de limpeza em restaurantes, hotéis e empresas eram quase invariavelmente realizados por cidadãos idosos, algo estranho para um país pretensamente desenvolvido e justo.

 

 Da esquerda para a direita: Tarso de Melo, Manuel da Costa Pinto e Yun Jung Im

Da esquerda para a direita: Tarso de Melo, Manuel da Costa Pinto e Yun Jung Im.

 

Há, portanto, um mal-estar na sociedade coreana que se mescla ao caráter efusivo e progressista do país. Esse desequilíbrio está presente também na ficção que tem saído do país nos últimos anos, na obra de autores como Bae Su-ah, Han Kang e Kim Young-ha. Yun, que conheceu Bae Su-ah, lembrou que a autora certa vez disse que buscava mostrar como os coreanos sofrem por uma “miséria relativa”: os tempos de crise econômica do país já passaram, e mesmo os mais pobres vivem bem, sem grandes privações. No entanto, por comparação, muitos se sentem miseráveis por não conseguirem se enxergar na imagem que foi construída para o país.

 

 A artista Yang Soeui e seu gayageum (cítara coreana)

A apresentação de canto e gaygaeum (cítara coreana) da artista Yang Soeui encerrou a cerimônia.

 

Todos esses aspectos estão contemplados nas três resenhas vencedoras do concurso. Cada uma buscou abordar o romance de uma forma diferente: uma delas analisa os nomes próprios e as formas de tratamento entre as personagens para elucidar suas relações sociais; uma apresenta Sukiyaki de domingo como “o livro da sociedade miserável”, e explicita o papel das mulheres no conflito entre modernidade e tradição; e uma rearranja e reconstrói a história fragmentada de Bae Su-ah, encarando o projeto poético de irregularidade a que a autora se dedica.

 Leia a íntegra dos textos abaixo:

 

1º lugar: Sukiyaki de domingo”, por João André Caberlon Pedone

 

Bae Su-ah cria uma teia de personagens que atravessa diferentes gêneros, idades e condições sociais, e cujos elos vão desde relações familiares até breves encontros fortuitos. A obra, marcada pela diversidade de problemáticas e condições de existência de suas personagens, apresenta-se como uma análise da miséria da Coreia contemporânea em suas diversas configurações: social, material, espiritual. O livro nos carrega, assim, através de grandes distâncias, desde ambientes de extrema pobreza até crises existenciais, revelando de forma virulenta a degradação, mas encontrando dignidade em lugares os mais inesperados.

O núcleo central a partir do qual se estrutura a rede de personagens do romance é a família de Ma e Kyung-sook Don. Ma é um ex-professor universitário que perde seu posto e sua família após um acidente que o deixa desfigurado. Sua antiga esposa, Hye-jeon Park, nunca trabalhara, e se vê decair socialmente após o divórcio. Perdida e fragilizada, ela se envolve com um (pseudo) intelectual amigo de Ma, Doo-yeon Baik. A babá dos filhos do casal, Jin-ju, é, por sua vez, uma ex-aluna de Ma cujo noivo, Sung-do, é um jornalista idealista que conduz uma série de entrevistas sobre a miséria, a partir das quais ele sonha editar um livro. Suas entrevistas nos introduzem, entre outros, a No-yong, que vive feliz morando de favor e alimentando-se de restos. Enquanto isso, acompanhamos as atribulações de um casal amigo de Jin-ju - Yo-han Kim e Yoo-eun Bae - que entra em crise ao ver suas vidas se esvaírem no trabalho e seu casamento cair na rotina. Kyung-sook Don, a atual mulher de Ma, por sua vez, é ela própria uma figura ao mesmo tempo superprotetora e violentamente opressora, que casara com Ma por pena, mas que o odeia por sua ociosidade. Ela passa todo o tempo a limpar o apartamento que, não obstante, sempre cheira a urina. Seu filho, Sae-won, é um malandro a procura de emprego que a extorque. O dinheiro ele usa para sair com Hye-rin Bu, sua namorada, uma menina obesa que é torturada psicologicamente e escravizada pela mãe, Hyun-jeon Pyo, que finge ter uma dívida para acumular dinheiro compulsivamente às escondidas da filha.

A obra se estrutura em dezessete capítulos, cada um dos quais relatando de maneira mais ou menos detalhada um episódio na vida de uma ou mais personagens, através de uma narração onisciente em terceira pessoa. O foco dessa narração varia intermitentemente, de forma que uma personagem que estivera em primeiro plano pode não ser mais citada e uma figura coadjuvante pode vir a ganhar destaque mais à frente. Não há um protagonismo claro, a despeito das personagens que reaparecem no decorrer do livro, já que poucas recebem o mesmo grau de destaque mais do que uma vez. Além disso, a narrativa é perpassada por uma miríade de personagens menores, compondo um painel largo, abrangente e não infrequentemente confuso. É um livro, pode-se dizer, episódico.

Há duas camadas narrativas que dialogam. Uma nos apresenta a psicologia das personagens e sua história pregressa - num “sumário narrativo”, uma exposição generalizada de uma série de eventos não necessariamente localizados no tempo e no espaço -, enquanto a outra nos narra cenas - ou seja, detalhes e gestos específicos dentro de um tempo e lugar determinados, nos termos de Norman Friedman. Isto é, o narrador nos apresenta as tensões estruturantes de cada personagem, as quais serão postas em jogo nas cenas. A narrativa, não obstante, não esgota - ou, ao menos, não resolve - essas tensões. Cada um dos episódios que compõem a obra acaba por ter, assim, uma qualidade que se poderia chamar pontual: são diretos, concisos, mas limitados.

Sukiyaki de domingo flagra momentos da vida dessas personagens, os quais são muitas vezes decisivos: seja o encontro final dos adúlteros, o reencontro de Jin-ju com seu ex-professor, a briga de Mali e Gang-shi. Mas não há uma pretensão de se expandir a narrativa para além desses momentos, acompanhar os processos de transformação a longo prazo dessa vidas. Essa qualidade se coloca bastante claramente nos episódios de Sae-won e Hye-rin, cujas participações no livro se encerram em cliffhangers, momentos de grande tensão que prefiguram reviravoltas drásticas. As quais, contudo, não nos são contadas. O romance nos dá insights profundos da vida e a realidade de cada uma de suas personagens, mas não mais do que isso. Bae Su-ah costura recortes sem uma pretensão de totalidade, assumindo-os como recortes. A narrativa tem, assim, um certo teor truncado por não resolver os conflitos que nos apresenta e por abandonar personagens com as quais vínhamos, muitas vezes, nos envolvendo. E disso decorre que as personagens parecem nunca sair de um estado de instabilidade. A qualidade formal se reverte no plano temático produzindo a imagem de vidas estagnadas, cuja luta contra a adversidade em nenhum momento se converte em redenção.

A coleção das narrativas individuais acaba, assim, por compor uma narrativa final que não é unívoca, mas tão plural e fragmentada quanto as partes que a compõem. O posfácio da autora (bem como o solilóquio de Sung-do) esclarece esse dado, afirmando que a miséria de que trata a obra seria um âmbito que, ao acompanhar o crescimento social, “está aumentando, tornando-se indefinido e diversificado”, “abstrato, até”.

A narrativa se estende, assim, desde o universo de imagens revoltantes de Ma e Kyung-sook (os vermes atrás do azulejo do banheiro; a baba; as fezes; as “escamas de peixe” que se desprendem do couro cabeludo) até digressões espirituais e elevadas com Sung-do e Doo-yeon Baik. A problemática de cada uma das personagens é deveras diferente: Sae-won se vê à beira de uma vida adulta que se afigura abominável, enquanto para Hye-rin o futuro se apresenta como uma incessante reprodução da rotina de trabalhar com sua mãe. Jin-ju e Sung-do experimentam as dificuldades e as inseguranças de se começar uma vida, enquanto Hye-jeon Park se vê no ocaso de uma vida, com dois filhos para criar e sem experiência profissional. O casal Yo-han e Yoo-eun se debate com a monotonia de seu relacionamento, enquanto Ma e No-yong se debatem com a incerteza de ter o que comer ou não. O romance de Bae Su-ah estica, dessa forma, o conceito de miséria até ele assumir uma qualidade vaga, imprecisa.

A miséria torna-se algo que atravessa classes sociais e que independe de beleza física, de faixa de renda, de idade, gênero ou grau de instrução. Um termo que define, portanto, não um grupo social em específico, mas uma condição da sociedade como um todo. Mas, se o romance nos apresenta essas realidades, ele não vai mais além, seja em direção a apontar raízes sociohistóricas dessa condição, seja em direção a apontar alternativas de futuro. O livro de Bae Su-ah não atribui importância diferenciada a algum elemento em específico nem cria uma cadeia de relações causais que justifique os eventos. A própria narrativa é esporadicamente pontuada por elementos “fantásticos” - como a chuva torrencial do Dia Negro e o acidente de Ma - que lhe conferem uma qualidade idiopática. A obra emula a opacidade do mundo, na medida em que lhe descreve a exterioridade sem sugerir articulações de significado ocultas.

Assim, retomando o que foi dito na introdução, até aqui não é possível identificar um elemento coesivo que atravesse a obra como um todo, ou de maneira uniforme. A antropóloga Mary Douglas escreve que “sujeira é matéria fora de lugar”. O livro tem, assim, para além da sujeira concreta que descreve, uma qualidade suja, a de não permitir que suas partes sejam articuladas sem que haja sempre algo “fora de lugar”. Suas narrativas não convergem, mas sugerem, justamente, significados divergentes e desarmônicos enquanto conjunto. Pode-se dizer que a singularidade da obra, seu programa estético, é justamente o da Irregularidade.

*

O que acredito que poderia ser uma mediação produtiva na abordagem da obra de Bae Su-ah é a poética tradicional do leste asiático. No haikai, bem como no jueju ou no sijô há uma rarefação da linguagem e, portanto, do sentido; onde o discurso é construído a partir da articulação de imagens recortadas, detalhes, que se relacionam de forma não-linear. Sukiyaki de Domingo reproduz em certa medida essas qualidades, seja no caráter truncado de seus capítulos, na não-causalidade de sua construção narrativa, no resultado irregular e no caráter vago que o tema vai assumindo. Essa sentida “incompletude” das narrativas que não se resolvem no narrado talvez seja instância de uma sensibilidade coreana que busca a “menor unidade poética possível”, como nas imagens do sijô. Porque cada uma das histórias não é em si um conto. Por mais que a unidade final seja complexa, a incompletude dos capítulos faz com que a força poética advenha de seu conjunto.

A distensão que Bae Su-ah faz da ideia de miséria seria, assim, a própria qualidade poética de seu trabalho. Em vez de operar com um campo semântico já circunscrito, ela invoca a poética tradicional para apontar um terreno de significação, mais do que delimitá-lo. É na articulação desses recortes que se produz o sentido, não obstante vago, daquilo que é a miséria urbana da Coreia contemporânea.

A obra gravita em torno do prédio em Buam-dong. Como se Ma e Kyung-sook fossem o epicentro da miséria, sua forma mais drástica, como ondulações na superfície da água a partir das quais se configura a miséria de toda sociedade. Como se o simples fato de existir uma tal miséria no mundo provocasse toda a instabilidade, pois quando a água começa a ondular, nada que está em sua superfície permanece em repouso. Assim, em todas as histórias, independente da quantidade de dinheiro de que dispõem, as pessoas vivem de forma miserável. De fato, não foi o acidente o que colocou Ma na miséria (entendida no sentido amplo que o livro lhe confere), mas apenas o que a agravou, o que a explicitou. Os relacionamentos humanos são, em geral, destrutivos. Teias de interesse e hipocrisia. O trabalho aparece frequentemente como lugar de frustração e autoaniquilação. E independente da classe social em que se está, não se encontram sentidos para o estar vivo e nem alternativas de futuro, já que nem a ascensão nem a queda social oferecem escapatória.

Nesse sentido, é fundamental a figura de No-yong. Porque, ao contrário das outras personagens, existe uma dimensão de escolha e de fruição em sua relação com a própria vida, com a própria miséria. Para as outras personagens, por mais que muitas delas busquem um lugar ao Sol, a vida parece ter sido dada como um peso, uma sentença, algo dotado de qualidade traumática: inexorável, intransformável. No-yong é o único que consegue converter suas condições de existência em um projeto de vida, tornando-se uma personagem quase heroica em sua recusa do establishment capitalista. O único que dispensa o dinheiro é, ironicamente, o único que não vive de forma miserável.

Inclusive, a figura de No-yong, enquanto a de um vagabundo por opção, espelha Ma, e transforma retroativamente nossa percepção do ex-professor. Porque se existe para No-yong dignidade em viver segundo sua escolha, ainda que de forma niilista e à margem da sociedade, essa dignidade existe também para Ma. O gesto da autora de implicar suas personagens como corresponsáveis por sua própria miséria é um ato oposto ao de vitimiza-las. Se o livro nega a inocência de seus protagonistas, também nisso lhes restitui a dignidade humana.

No-yong é uma figura que me marca em particular. Mas é, na realidade, assim como cada um dos outros personagens, uma peça numa cadeia de relações cujo sentido se define a partir das relações internas, cujos contrapontos são o que fazem as narrativas se iluminarem entre si. É justamente em sua qualidade problematizadora e incerta que reside a beleza de Sukiyaki de Domingo: o romance respeita a complexidade daquilo que pretende representar, invocando, para isso, uma estética tradicional que lhe permite articular as partes num todo que também é problemático. Bae Su-ah tateia por essa rede de relacionamentos contemporâneos – sociais e afetivos –, buscando imagens que condensem o sentido desse mundo em que ela vive, mas que (bem sabemos) é tão difícil de descrever. 

 

2º lugar:  “Sukiyaki de domingo ou ‘o livro da sociedade miserável’”, por Eric Winiarski Muccio

 

Você acredita na vida eterna no outro mundo?
Não, mas acredito na vida eterna neste mundo.
Há momentos em que o tempo para de súbito para
dar lugar à eternidade.

Dostoiévski

 Não foi até o final dos anos 1960 que a ficção escrita por mulheres na Coréia começou a se desvincular da noção de que ela representava um rótulo discriminatório e de exceção—de ficção “feminina”. Nos anos 1970, a partir do turbilhão que as reformas políticas, o despotismo, e o incentivo à industrialização geraram é que as escritoras começaram a encontrar sua própria voz.[1] Bae Su-ah, autora de Sukiyaki de domingo (2003), nasce em 1965, exatamente em meio à agitação de “‘uma era de despertar de consciência e de cultivo do talento’”[2], e é graças à equalização das oportunidades de estudos das mulheres aos homens, e ao enorme aumento dessas oportunidades ao longo da década de 1980 que a literatura feita por mulheres se desenvolveu amplamente.

Na história da literatura coreana às mulheres escritoras (que constituíam escassa minoria ainda nos anos 1960[3]) são atribuídas as realizações que passam a dar a seus trabalhos aspectos modernos e ocidentais, “com personagens que, libertando-se da família e da ética confucionista, reconheceram a liberdade como um novo valor e confrontaram o espaço moderno. Uma liberdade transicional como esta, combinada com uma modernidade nada familiar, não poderia deixar de ser confusa.”[4]

A modernidade, porém, já não é estranha aos coreanos de Sukiyaki de domingo, que ainda assim muitas vezes não se acham livres da tradicional ética familiar e de gênero: ainda que a autora trabalhe com inúmeras personagens masculinas, na obra de Bae Su-ah ganham impacto as personagens femininas—é com o sofrimento ou dedicação destas que o narrador alcança o efeito do choque, deixando explícita a violência dos “valores tradicionais” cujas raízes não são facilmente retiradas da mentalidade social patriarcal.[5]

Diversas ideias naturalizadas permeiam a obra. Individualismo e forte ensimesmamento das personagens são constantes; também o ideal de meritocracia, intercalado com reflexões acerca da pobreza, da qual trataremos mais adiante:

 

Era considerado óbvio que os incapazes de executar trabalhos de alto valor agregado não mereciam se tornar “ricos”.[6]

 

Sukiyaki de domingo é um romance fragmentado que, conforme as palavras da autora, não é narrado em ordem cronológica e que foi escrito ao longo de muitos anos. Apesar disso, a obra apresenta aspectos narrativos que merecem ser mencionados com atenção especial ao modo de narrar. Sua estrutura atravessa as estórias de diversas personagens, cada uma atenta ao contexto de sua própria vida, de forma que as percepções são fornecidas de diferentes pontos de vista: Jin-ju preocupada em encontrar um bom apartamento para morar com o noivo; No-yong mantendo-se livre de amarras financeiras; a figura desconhecida de “Um dia negro” em divagações sociofilosóficas acerca da pobreza; etc.

O narrador ou a voz narrativa é onipresente, mas sua onisciência é imperfeita. É afetado pelas condições que cercam as personagens. Experimenta as sensações delas, sabe o que já sabiam de antemão, mas vê apenas o que elas veem também. Na segunda seção do capítulo “Um dia negro” há na penumbra do apartamento um indivíduo pouco claro, que a narradora enxerga parcialmente, e que deixa de enxergar quase completamente quando a escuridão toma conta do dia e o indivíduo igualmente deixa de enxergar o ambiente:

 

O mundo escureceu. Ele se debruçou sobre a mesa porque não conseguia continuar com a leitura. Será que estava chorando?[7]

 

 O narrador não pode dizer com certeza se a figura derrama ou não alguma lágrima, apenas acompanha sua sensação de vazio.

Com respeito às diferentes narrativas queremos ressaltar seu aspecto entrecruzado. Narrativas que se cruzam não são um conceito novo na literatura e tendem, por isso, a ser pouco originais. Nesta obra de Bae Su-ah a particularidade está no fato das estórias se entrelaçarem numa simultaneidade horizontal. Apesar do pouco espaço de tempo que as separam. Narrativas cruzadas apresentam comumente estórias separadas que se cruzam num determinado e exato momento, o mesmo para ambas as estórias. O que não se formula com frequência são relações passadas e distantes entre as personagens que se encontram, como é o caso de Sukiyaki de domingo. A narrativa cronológica não vigora inexoravelmente. Entre as estórias, o mundo real existe e o tempo do relógio não deixa de avançar continuamente, enquanto o mote para o enlace são relações passadas entre as personagens. Jin-ju reencontra seu antigo professor da faculdade sem o reconhecer de fato; a figura deformada do atual Ma a enjoa, ela não encontra modo certo de reagir, entrega muito mais dinheiro do que Ma pede; e assim temos o estabelecimento da relação entre a narrativa de Ma com a de Jin-ju, que deveria estar cuidando dos filhos daquele, sem nenhum dos dois saber que Hye-jeon Park, a ex-esposa de Ma, havia contratado Jin-ju.

Bae Su-ah diz ter pensado “num romance com rupturas.”[8] Mas, de fato, a obra não terminou assim. Sem ler os comentários da autora, Sukiyaki não aparenta ser composto por estórias rompidas, mas continuadas, conforme os motivos que apresentamos, ainda que não o sejam em sequência. Há, portanto, muita coesão nesse texto escrito intercaladamente ao correr dos anos.

 O tema central da obra, por outro lado, é a miséria comum. Bae Su-ah retrata na vida da periferia de Seul a realidade da nação, para a qual o progresso e a conquista material são exceção. Ela revela ao leitor que a Coréia do Sul não é o paraíso do desenvolvimento para as massas. Ir a um restaurante de sukiyaki é, por exemplo, para os sul-coreanos da obra, um indicativo de bom status financeiro. Mas a questão levantada pela autora não é simplesmente o fato de os sul-coreanos serem tão mais pobres quanto a mídia internacional mostra seu país como rico.

 

(...) à exceção de alguns (...) todas as outras pessoas da camada popular não passavam de trapos, sem um pingo de dignidade humana para ser defendida.[9]

 

Sukiyaki é um prato típico japonês que se modificou radicalmente com as influências da culinária exterior.[10] O prato se difundiu entre os países asiáticos e passou a ser apreciado principalmente na China e na Coréia, além do próprio Japão. E a carne é ainda hoje uma marca de riqueza. Quanto à alimentação da parcela pobre da população:

 

The very poor only take two meals a day, but those who can afford it take three and four.[11]

 

Em um cenário periférico e sufocante, de apartamentos extremamente pequenos e bagunçados, não se reconhece a Seul divulgada ao mundo ocidental. O choque experimentado a partir da leitura do livro de Bae Su-ah advém, antes de tudo, do contato com a miséria extrema (num país que conhecemos apenas como potência industrial, tecnológica e símbolo de desenvolvimento. Mas essa Coréia é alheia aos fatos que presenciamos na obra), mas não a miséria da escassez de recursos financeiros; antes, da miséria humana, que Bae Su-ah trata magistralmente e que faz de Sukiyaki de domingo uma obra que diz respeito à toda a humanidade e não somente aos sul-coreanos. Vivendo fora da Coréia do Sul desde 2001, mais precisamente na Alemanha, Bae Su-ah manteve suas lembranças da miséria das massas de seu país e mostra que a realidade insípida da pobreza humana não é exclusiva de algumas sociedades.

A figura do pai é então a de maior força ao revelar a pobreza da alma humana: Ma abandona e quer esquecer os filhos; o dono da lavanderia espanca a filha ladra, oferece a pequena Gang-shi dois socos que lhe quebram o nariz e atordoam mesmo uma Jin-ju preocupada com a pobreza, com onde morar, e em fugir dali com Mali rapidamente.

 

[1] Chongnan, Kim  (2003). “Late twentieth-century fiction by women”, p. 484.
[2] Citação feita por Chongnan (p. 484, nota 7). As traduções de trechos de A History of Korean Literature são livres e feitas por nós.
[3] Cerca de 90% das mulheres coreanas eram analfabetas nos anos 30, conforme citação feita por Carolyn So (p. 418, nota 16) em “Early twentieth-century fiction by women”, 2003.
[4] Chongnan, p. 483.
[5] Queremos dizer com isso que os valores tradicionais patriarcais têm ainda resquícios; mas, em resumo, a ideia de “lar tradicional” se desfez ao longo dos anos 60 e 70 (Chongnan, p. 483).
[6] Bae Su-Ah. Sukiyaki de domingo, p. 268.
[7] Idem, p. 203.
[8] Idem. “Palavras da autora”, p. 300.
[9] idem, p. 275.
[10] Shurtleef & Aoyagi, 2014, p. 369.
[11] Terry's Guide to the Japanese Empire (1933), p. 725. Conforme citado por Shurtleef & Aoyagi, p. 220. A continuação da citação carrega tons preconceituosos ou altivos. O relato de Terry é direcionado e repleto de julgamentos, ainda que possa ter servido aos propósitos que o autor do livro lhe propôs. Reproduzimos o restante do trecho: “Among the dishes dear to the native heart are prounded capsicum, bean curd [tofu], various sauces of abminable odors, a species of sour kraut (kimshi [kimchi]), seaweed, salt fish, and satled seaweed fried in batter. [...] There are no harder or more constant drinkers than the Koreans, and the vice is common to all classes.” 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 SU-AH, Bae. Sukiyaki de domingo. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.

 

CHONGNAN, Kim. “Late twentieth-century fiction by women” In: LEE, Peter H. (edit.). A History of Korean Literature (Asian Student Edition, 2006). Cambridge University Press, 2003, p. 481-496.

IM, Yun Jung (sel.). Contos contemporâneos coreanos. São Paulo: Landy Editora, 2009.

SO, Carolyn. “Early twentieth-century fiction by women” In: LEE, Peter H. (edit.). A History of Korean Literature, ed. cit., p. 406-419.

SÁNG, Yi. Olho de corvo / e outras obras de Yi Sáng. São Paulo: Perspectiva, 1999.

SHURTLEFF, William & AOYAGI, Akiko. History of soybeans and soyfoods in Korea, and in korean cookbooks, restaurants, and korean work with soyfoods outside Korea (544 CE to 2014). Laffayatte: Soyinfo Center, 2014, p. 219-370. (Disponibilizado digitalmente sem custo pela editora.)

SOHN, Ho-Min & LEE, Peter. “Language, forms, prosody, and themes” In: LEE, Peter H. (edit.). A History of Korean Literature, ed. cit., p. 33-51.

 

 

 

3º lugar: “Indivíduos”, por Helena Mamede Ciorra

 

Em Sukiyaki de domingo, seu primeiro livro traduzido ao português, Bae Su-ah escolhe retratar a sociedade coreana sob um olhar peculiar e até mesmo incômodo para uns: a miséria. Seja ela material ou espiritual, Bae busca explorar as diversas ramificações resultantes deste estado pois, segundo a própria autora, “[pode] afirmar com veemência que nunca encontrou ninguém livre da miséria”. Com uma estrutura única e por vezes não linear, o livro é composto por pequenos contos interligados por seus personagens, ora principais, ora secundários. Sem pudor em descrever cenas desconcertantes, seus personagens também estão longe de ser pessoas admiráveis. Em sua maioria, são seres marginalizados e danificados pela sociedade capitalista, não havendo solidariedade ou laço familiar que amenize a situação.

            Justamente pela diferente estrutura narrativa utilizada, os personagens de Bae são o sustento da obra. O primeiro detalhe que salta aos olhos são seus nomes, ainda que a autora pareça repetir ao longo do livro que “o nome não tem tanta importância”. A maioria das mulheres são nomeadas incluindo seus sobrenomes, enquanto a maioria dos homens atendem apenas pelo primeiro nome. Podemos observar também um certo padrão: os sobrenomes aparecem junto aos que não são pobres, coincidentemente os mesmos que fazem parte de uma elite intelectual, frequentadores de universidade. Há, claro, as exceções que parecem propositais. Kyung-sook Don, uma miserável ajudante de cozinha casada com um ex-professor universitário (Ma, que há muito perdera o prestígio que o título lhe conferia e possui o nome mais curto do livro), cujo sobrenome ironicamente tem a mesma leitura coreana de “dinheiro”; Hyun-jeong Pyo, uma costureira que vive em um apartamento simples em um bairro pobre, na verdade revela-se uma pessoa avarenta que guarda bolos de dinheiro pela casa; e Sung-do, um escritor com formação universitária, mas que possui origens humildes e é considerado um “pé rapado” e desprezado por alguns colegas de mesmo nível intelectual.

            Ainda no que diz respeito a essa dicotomia de gêneros, as mulheres também são retratadas como dedicadas trabalhadoras, qualquer que seja sua posição social. Kyung-sook Don trabalha o dia inteiro em um restaurante e é a responsável pelo sustento da miserável família. Seu segundo marido, Ma, é um ex-professor universitário que ficou debilitado após um acidente e se recusa a trabalhar em locais “inferiores”. Hyun-jeong Pyo, uma costureira que se vangloria por ter trabalhado em uma butique chique no passado, trabalha “seis dias por semana, mais de dez horas por dia”. Avarenta, Hyun-jeong Pyo não confia nem mesmo em sua própria filha e prefere viver uma vida extremamente humilde a gastar um tostão dos maços de dinheiro que esconde pela casa. Seu dinheiro representa “seu orgulho, sua razão do viver e sua identidade”. Após ter sido roubada por um ex-amante, jura ficar longe de homens pois “se fosse atrás do amor e do romantismo, ela perderia todo o dinheiro”. Hye-jeon Park, primeira esposa de Ma, casou-se assim que terminou a universidade e nunca possuiu um emprego fixo ou ganhou dinheiro em troca de seu trabalho. Era, porém, uma dedicada dona de casa, “não tendo hora para terminar o serviço” e achava que merecia ser tão valorizada quanto o ex-marido. Após o divórcio, começa a ser cortejada por Doo-yeon Baik, um colega dos tempos de universidade que não passa de um pilantra com muita lábia, sempre tentando fazer com que terceiros invistam dinheiro em suas ideias. Jin-ju, a babá dos filhos de Hye-jeon Park, trabalhava como professora durante o dia, porém precisava do dinheiro extra que o serviço de babá lhe proporcionava pois jamais se permitiria voltar às suas origens miseráveis. Yoo-eun Bae, uma intelectual nascida em berço de ouro que sempre obteve destaques na vida, “trabalha tanto que não tem tempo nem para dormir”. Seu marido, Yo-han Kim, é também um intelectual com formação universitária, mas tem o luxo de poder fantasiar com uma vida “criativa, abstinente e solitária” e trabalhar apenas para manter o padrão de vida.

            Dentre todos, porém, o destaque com certeza é No-yong, que aparece somente nos capítulos finais. No-yong é, como sua irmã Jun-hee descreve, “a personificação da pobreza”. Um jovem próximo aos 30 anos, recusa-se a trabalhar por pura preguiça e por simplesmente não se incomodar pelo fato de não ter dinheiro. Sua única real preocupação é como arranjar comida, pedindo sobras e alimentos recém-expirados a quem quer que seja. Reconhece que é difícil obter comida de graça pois, caso contrário, a motivação de muitos elementos da sociedade para trabalhar não existiria mais e isso “seria perigoso demais” em termos capitalistas. No-yong, livre do instinto de sempre desejar dinheiro, das preocupações e obrigações impostas pelo sistema, é talvez o personagem mais feliz da história por saber que jamais precisaria competir com ninguém. Livre do estresse, sua saúde também é perfeita. Embora tenha sido criado com a irmã nas casas de parentes ricos e frequentado uma universidade – uma faculdade de música, inclusive, algo de muito prestígio na Coreia –, No-yong prende-se apenas ao fato de ter crescido em um orfanato e por isso aceita seu papel “inferior” na sociedade e nunca almejou muito na vida. Após ouvirem de um irmão perdido que haviam nascido em berço de ouro, Jun-hee começa a ficar inquieta com a ideia de que poderia ter sido “alguém especial”. Em uma carta ao irmão, diz que suas atitudes são paradoxais pois No-yong não age como um pobre nato, que deveria buscar instintivamente escapar de sua situação miserável.

            É contando a história destes indivíduos que a autora busca refletir um pouco da história da sociedade moderna coreana. É na casa do personagem mais alheio aos infortúnios da pobreza que notamos um calendário datado de 1997, possível referência à devastadora crise financeira que assolou a Ásia na época e levou diversas famílias a situações similares ou até piores às descritas aqui. A verdade é que a miséria em si não tem fim, é um ciclo vicioso que ultrapassa os limites sociais e domina os indivíduos, refletindo em seu âmago. Ainda que muitos trabalhem incessantemente para mudar sua situação, muitas vezes restará ainda a miséria do ser. O sistema impõe um desejo de consumo como algo inerente à vida urbana e resta-nos apenas compartilhar do desejo de No-yong de que “no último dia do mundo estejamos livres da horrível ambição”.

 

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