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Entrevista com Denise Santanna

A autora fala sobre sua pesquisa, influncias e as ambivalncias do corpo

Em Gordos, magros e obesos Uma histria do peso no Brasil, Denise Bernuzzi de SantAnna aplica toda sua experincia como pesquisadora de histria da corporalidade a uma questo especfica: o peso corporal (e, principalmente, a percepo sobre ele) no Brasil. O livro traz exemplos da literatura e da msica, bem como recortes de imprensa e anncios publicitrios, fornecendo um timo panorama histrico do ltimo sculo. A autora mostra as mudanas ocorridas nos hbitos e padres de beleza, nos significados culturais da gordura e da magreza, na indstria da alimentao, na medicina e na moda.

Leia abaixo entrevista com a autora:

A revista

A revista "Realidade", em 1975, trazia dicas para as mulheres "se cuidarem"

Em um trecho do livro, voc afirma que Entre os anos 1930 e 1940, a ideia de que engordar envelhecer, perder a elegncia e a esbelteza comeou a se espalhar nos conselhos dirigidos s mulheres e em artigos sobre higiene e sade. As mulheres sempre foram mais atingidas por essa mentalidade do culto ao corpo perfeito? Por qu?

Sim, se pensarmos na antiga suposio, que prevalece ao longo da histria, segundo a qual cuidar do corpo e, sobretudo, da aparncia fsica deve ser "coisa de mulher". Como se o dever do embelezamento fosse mais contundente s mulheres do que aos homens. Mas, se voltarmos as atenes para os cuidados da aparncia fsica masculina, veremos rapidamente que esta suposio , em grande medida, falsa. As preocupaes com a imagem corporal estiveram presentes entre homens e mulheres em vrias sociedades e culturas. Ocorre que, no sculo XX, por exemplo, a figura feminina foi mais utilizada pela publicidade do que a masculina, especialmente quando se tratava de vender cosmticos, vestimentas e servios para "manter a linha". A partir dos anos 1950, ficou mais evidente que homens e mulheres eram utilizados amplamente como figuras representativas da necessidade de cuidar do corpo. Em um pas como o Brasil, com uma grande populao jovem, o ideal do corpo perfeito atinge ambos os sexos, mas mantm-se o pressuposto de que a mulher, para vencer a concorrncia no atual mercado dos afetos, precisa estar sempre sedutora, sexy, com cabelos e pele muito jovens, alm de ser alegre e cheia de energia. Mas no se trata apenas de uma imposio que vem dos homens para as mulheres. H uma parte de prazer obtido entre muitas mulheres em serem consideradas, entre elas, joviais e belas.

Voc acredita que realmente est ocorrendo uma desmistificao na dualidade gorduraversussade, uma vez que hoje se admite que pessoas gordas no necessariamente so doentes, assim como a magreza nem sempre reflete sade? Voc considera que este aspecto da preocupao com a sade dos corpos legtimo ou um pretexto para controlar outros aspectos da vida dos indivduos?

A histria dos regimes e dos gordos e magros repleta de ambivalncias. Na alimentao, por exemplo, se a gordura passou a ser aceita entre pessoas que at recentemente assimilavam a sua ingesto s doenas cardiovasculares, por outro lado, a desconfiana em relao aos alimentos muito processados aumentou, juntamente com a propaganda de intolerncias especficas, como a do glten por exemplo. J em relao ao corpo, verdade que h um nmero maior de grupos sociais de gordos que se querem gordos, mas, ao mesmo tempo, houve uma crescente crtica aos gordos que no conseguem mostrar que esto satisfeitos com eles mesmos. No se trata apenas do binmio sade-doena, mas tambm e principalmente da possibilidade de conjugar gordura ou magreza com uma imperativa "alegria de viver".

Anncio dos Comprimidos Vikelp, de 1961. O significado da gordura e da magreza variou muito ao longo dos anos.

Anncio dos Comprimidos Vikelp, de 1961. O significado da gordura e da magreza variou muito ao longo dos anos.

Voc tambm faz referncia na obra s histrias de duas modelos que faleceram em 2006 em consequncia da anorexia. Em relao indstria da moda, h esperana no sentido de uma mudana de perspectiva sobre as exigncias quase irreais de corpos extremamente magros? Como voc v isso nos dias atuais?

H uma conscincia maior sobre o problema. O que no significa que no mais existiro modelos esqulidas e anorxicas. Entretanto, o aumento da conscincia de que a anorexia um problema grave e que pode manchar o nome das marcas e prejudicar empresas pode contribuir para que o controle do peso das modelos caminhe no sentido de evitar as muito magras.

Anncio de adoante Suita. As mudanas na indstria da alimentao causaram mudanas profundas nos hbitos corporais

Anncio de adoante Suita. A evoluo tecnolgica da indstria da alimentao causou mudanas profundas nas formas de cuidar do corpo

O que a levou a se debruar sobre essa faceta especfica de uma disciplina to vasta quanto a histria? O que a influencia? Georges Vigarello foi seu maior mentor?

Foram diversas influncias. Trabalho com histria do corpo desde o meu mestrado, defendido na PUC-SP e posteriormente publicado [O prazer justificado, So Paulo: Ed. Marco Zero, 1994]. Era o final dos anos 1980, e o tema do corpo havia se tornado um imenso campo de estudos em diversos pases. Fui fazer meu doutorado em Paris, com bolsa do CNPq, quando ento encontrei uma bibliografia j consagrada e internacional sobre histria, sociologia e antropologia do corpo, com suas revistas, grupos de estudo etc. Tive a positiva influncia da minha orientadora de doutorado, Michelle Perrot, e do professor e hoje amigo Georges Vigarello. Mas muitos outros, claro, influenciaram minha trajetria.

O Gordo e o Magro: o que antes era objeto de humor foi absorvido pelo discurso mdico

O Gordo e o Magro: o que antes era objeto da cultura popular foi absorvido pelo discurso mdico

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Denise Bernuzzi de Sant'Anna

Denise Bernuzzi de Sant'Anna professora livre-docente nos Programas de Ps-Graduao de Histria e Psicologia Clnica da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo. pesquisadora I do CNPq. Doutorou-se em 1994, na Universidade de Paris VII, e possui ps-doutorado em histria pela cole des Hautes Etudes (EHESS). Publicou os livros O prazer justificado: histria e lazer [Marco Zero, 1994], Polticas do corpo [Estao Liberdade, 1995], Corpos de passagem Ensaios sobre a subjetividade contempornea [Estao Liberdade, 2001], Cidade das guas Usos de rios, crregos, bicas e chafarizes em So Paulo (1822-1901) [Senac, 2007] e Histria da beleza no Brasil [Contexto, 2014], alm de diversos artigos sobre as relaes entre o corpo e a cultura contempornea.

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