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Rita Kohl fala sobre "O Museu do Silncio" na Rdio USP

 

 

Rita Kohl, responsável pela tradução de O Museu do Silêncio, de Yoko Ogawa, esteve no começo deste mês no programa Biblioteca Sonora, da Rádio USP. Rita foi entrevistada por Marcelo Bittencourt e falou sobre vários assuntos, desde pormenores da tradução do livro até sua experiência como mestranda na Universidade de Tóquio.

 

Leia abaixo alguns dos temas abordados ao longo da entrevista:

 

Sobre a autora

Yoko Ogawa [n. 1962] é uma escritora bem conhecida, com muitas obras publicadas no Japão e muitos títulos traduzidos pelo mundo. Ela é pouco traduzida no Brasil, mas me surpreendi ao ver que muita gente ficou feliz com a tradução desta obra dela, então, provavelmente por conta destas traduções, ela já tem fãs por aqui também. Ela é mais ou menos da mesma geração do Haruki Murakami [n. 1949]. Ela ganhou o prêmio Akutagawa, que traz muita visibilidade, voltado a autores da chamada “literatura pura”, que são autores que realmente trabalham a linguagem e a literatura como arte, em oposição a autores de “literatura popular”.

 

Desafios da tradução de O Museu do Silêncio

O Museu do Silêncio me agrada por ter um lado delicado e bonito das relações humanas, mas também trazer algo mais pesado, este interesse pela tristeza e pelas decadências. A escritora tem um cuidado muito grande com as palavras, com a escolha de vocabulário. Lendo ensaios dela sobre escrita, percebi que ela diz que tem a preocupação de usar palavras específicas. A estrutura de texto e das frases é bem clara. A dificuldade é de escolher as palavras e identificá-las (no caso de termos específicos da museologia ou da biologia, como nas passagens em que o museólogo observa amostras no microscópio), mas não há conflitos por conta das diferenças das línguas, como frases ambíguas ou construções muito próprias do japonês que são difíceis de converter. O trabalho maior foi mesmo de vocabulário, para tentar trazer esta delicadeza na escolha das palavras que ela tem.

E os diálogos são o mais difícil na tradução do japonês. A escrita representa muito fielmente o jeito que se fala. A escrita japonesa representa exatamente cada sílaba falada, dando todas as marcas da oralidade, e há muitos níveis de polidez e coloquialidade que estabelecem a relação entre os personagens. A velha, por exemplo, é muito grossa, seca, e isso no japonês fica muito claro. Há o trabalho de passar isso para o português sem ferir a norma culta, respeitando os limites da língua. Acho legal como cada personagem tem uma voz no original japonês.

 

Personagens: o museólogo

Gosto muito deste personagem porque ele tem uma paixão muito sincera pelo que ele está fazendo. Ele não entende muito bem o que é, mas por sua devoção ao trabalho ele se dedica e vai a fundo, para fazer com seriedade e entusiasmo genuínos o ‘melhor museu possível’, apesar do fundo de perplexidade: quem é a velha? Por que esse museu? Quando vai terminar o trabalho? Tem também um embate porque ele deseja rever a família mas não consegue dar as costas ao projeto do museu.

 

Personagens: a velha

A velha é grossa, mas não porque é ruim. E sim porque ela está pensando em coisas maiores, presa em seu destino de fazer o museu. Ela não tem escapatória, precisa fazer aquilo dar certo antes que seu tempo acabe. A sensação de destino e certa obsessão podem ser a origem desta grosseria dela. Acho muito interessante o olhar que Ogawa tem desta decrepitude, uma coisa física da velhice: a velha é nojenta, tem furúnculos, sua dentadura cai, ela cospe. Mas isso não é descrito para ser nojento e nem cômico, é um aspecto da vida, efeito de ser velho. Isso se vê em outras obras dela também. O almanaque da velha também tem a ver com esta ideia de um projeto maior e de a velha ser descrita como alguém que “enxerga mais longe”. O almanaque da personagem mostra ela como receptáculo de uma cultura, de informações, tradições e conhecimento sobre o mundo.

 

Personagens: a menina, o jardineiro e os arquétipos

Para mim, os personagens deste romance parecem sempre representar facetas da vida ou das pessoas. Acho que a autora tentou criar personagens mais universais. Enquanto a velha é muito velha e decrépita, a menina é jovem, tem um frescor e uma delicadeza. O que o jardineiro me passa é uma sensação de segurança: quando o museólogo está aflito ou sem entender como deve proceder, é o jardineiro que lhe dá alívio e conforto. A vila me parece uma bolha, as pessoas têm seus papéis, muitas vezes passados de geração em geração e devem se ater a eles. Os missionários do silêncio, também, uma vez que assumem o compromisso, dedicam-se exclusivamente a ele.

 

Yoko Ogawa e A fórmula preferida do professor

Fiquei muito feliz pela oportunidade de poder trazer uma escritora nova. A sugestão foi da editora, mas há muito poucas mulheres traduzidas e muita gente nova para se traduzir. Muitas vezes, continua-se trazendo obras de autores já estabelecidos, é importante abrir espaço para outras vozes. E no caso da Yoko Ogawa, ela tem um estilo diferente, uma voz muito própria. Ano que vem pela Estação Liberdade vai sair A fórmula preferida do professor, um livro bem diferente de O Museu do Silêncio mas que traz algumas temáticas semelhantes, como as questões da velhice e da memória. Uma coisa que me chama atenção na obra dela é que ela tem uma pesquisa: a edição japonesa de O Museu do Silêncio, por exemplo, traz uma bibliografia sobre museologia e com obras usadas como referência para o almanaque da velha. Em A fórmula preferida do professor isso acontece mais ainda com a matemática e com a pesquisa necessária para unir matemática e literatura e para colocar a paixão do personagem dentro do livro dela.

 

Mestrado em Tóquio e diferenças culturais

                O mestrado foi uma consequência da minha graduação em letras português/japonês na USP. Antes de me interessar pela cultura japonesa, me interessava apenas em estudar uma língua muito diferente para tentar entender como funcionava e como se pensa em uma língua que funciona de outra maneira. Ao longo do estudo, fui me encantando com a cultura japonesa e me identifiquei com vários aspectos. Depois consegui a bolsa para o mestrado e fui a Tóquio. Muitas coisas me surpreenderam: há um lado de segurança, de gentileza, o Japão me parece um pouco acolchoado. Tem uma sensação de que as pessoas cuidam uma das outras, uma sensação de comunidade que não temos por aqui. Ao mesmo tempo, podemos achar que elas cuidam da vida alheia mais do que seria considerado normal para nós. O que acho interessante é ver como todos os lugares são estranhos a seu modo. Quando voltei, vi com estranheza algumas coisas de que não me dava conta. Por exemplo: em São Paulo, você entra no ônibus e o motorista sai correndo. No Japão, como o transporte público é muito usado por idosos, o motorista espera todos sentarem, depois avisa: “vou dar partida!” Quando você está lá você pensa: “é claro que ele vai dar partida, por que precisa avisar?” Mas quando você está aqui e o motorista sai correndo enquanto você está de pé tentando guardar sua carteira, também é frustrante (risos). Fora isso: as pessoas falam muito alto aqui! Lembro que quando voltei, fiquei chocada: “por que as pessoas estão gritando no restaurante?!” (risos)

 

Tese sobre Musashi

Foi minha dissertação de mestrado. A princípio, queria fazer um trabalho sobre literatura japonesa contemporânea, até porque na graduação não se estuda muito estes temas, até pela falta de traduções disponíveis. Mas, quando cheguei lá e comecei a conhecer um pouco de teoria da tradução, decidi estudar esta área, pois, para mim, a tradução é a forma mais divertida e desafiadora de trabalhar as línguas. O melhor jeito de fazer a dissertação seria, então, analisar um caso de uma obra traduzida. E o Musashi é muito especial, não tem equivalentes por aqui, porque foi uma das primeiras traduções diretas em uma época em que era comum traduzir do francês e do inglês, porque foi traduzido integralmente (a edição nos EUA, por exemplo, é resumida) e porque o livro fez e ainda faz muito sucesso, o que foi fundamental para abrir caminho para outras traduções. A ideia, portanto, não foi de estudar as escolhas da tradutora, mas mais a questão da recepção do livro, como ele é visto no Brasil em relação com a cultura japonesa. Musashi é visto como um samurai exemplar, mas, na verdade, ele era um caso muito particular, pois não tinha senhor e vivia por conta própria, em uma época quando as guerras já haviam acabado. Apesar de ser uma exceção como samurai, ele é visto aqui como o um exemplo. Mas a tradução da Leiko Gotoda traz muito de história e de filosofia, então tem um conhecimento muito interessante que ela colocou no livro e que é transmitido para as pessoas. E é importante lembrar que esse é o Musashi de Eiji Yoshikawa, uma história muito romanceada em relação à figura histórica, sobre a qual temos poucas informações. Mas esta obra se tornou a versão lendária da vida do Musashi, que deu origem a filmes e outras adaptações.

 

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Clique aqui para mais informações ou para adquirir "O Museu do Silêncio", de Yoko Ogawa (trad. do japonês de Rita Kohl)

Clique aqui para ler o início do livro

 

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