Mídias Sociais
Facebook
Twitter
Instagram
Pinterest
Youtube

Descobrindo as figuras de Grard Genette

 Clique aqui para ver as obras de Gérard Genette na loja virtual da Estação Liberdade.

 

A Estação Liberdade publicou em março o livro Figuras III, de Gérard Genette (n. 1930), em tradução de Ana Alencar. Genette é considerado o principal teórico da narratologia — estudo das narrativas — e sua terminologia foi largamente incorporada pela teoria literária. Mas, afinal, qual a importância de conhecer e ler Gérard Genette?

 

A PROPOSTA

Diferentemente dos dois primeiros livros da série Figuras, em Figuras III Gérard Genette não propõe análises críticas de textos singulares. Aqui, o autor examina os modos de narração e formula categorias e traços permanentes do fato literário em geral, isto é, elementos que estão presentes em todas as narrativas e independem de autoria, lugar ou época. Genette se inspira nas categorias do verbo (modo, voz, tempo, pessoa...) e expande essas categorias da narrativa para o discurso, articulando-as à história.

Apesar de seu nome não ter sido tão difundido quanto o de alguns de seus colegas como Roland Barthes (1915–1980), Tzvetan Todorov (1939–2017) ou Algirdas-Julien Greimas (1917–1992), os conceitos de Genette, como homodiegético ou heterodiegético (que designam, respectivamente, se um narrador participa ou não da história que narra), são usados com frequência na análise literária, por vezes, sem que se lembre que suas origens remetem ao autor de Figuras III. Para Genette, as formas da fala humana são, necessariamente, formulações narrativas. O nosso modo de estar no mundo, portanto, passa pela “narratividade”, daí decorre a abrangência da teoria proposta por ele: a narratologia.

Sua pesquisa é um antídoto contra algumas tendências predominantes da crítica literária de sua época como, por exemplo, o historicismo e o impressionismo. Genette desenha um método de abordagem do texto, buscando uma passagem do plano imanente para o plano conceitual. Não por acaso, Genette convoca a obra-prima Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, como ponto de partida, afinal, nesta obra está em jogo uma sofisticação da escrita que enlaça no tempo a narrativa e a narração. Denis Diderot, Honoré de Balzac, Lawrence Sterne, Homero, Jorge Luis Borges, entre muitos outros, compõem o rico escopo da análise.

 

Gérard Genette e a edição brasileira de “Figuras III”

Gérard Genette e a edição brasileira de “Figuras III”. Foto (c) Olivier Roller 

 

DA CRÍTICA À TEORIA, DO SINGULAR AO GERAL

Em 1965, Genette começou a assistir aos seminários de Roland Barthes, o principal mentor intelectual do movimento estruturalista. Outros participantes desses seminários também viriam a tornar-se linguistas de destaque, como Algirdas Greimas e o próprio Todorov. Ali surgiu o embrião da análise (ou teoria) da narrativa, depois chamada de narratologia. Enquanto seus colegas passavam das estruturas formais do texto para a reflexão em torno da ideologia do texto, Genette permanecia na análise das possibilidades textuais em sua relação com a temporalidade e a espacialidade.

O estruturalismo, portanto, apesar de ter importância no contexto em que Genette inicia sua carreira, é apenas um ponto de referência entre muitos em sua obra. Do seu ponto de vista pessoal, Genette explica que a origem para Figuras III surgiu após alguns seminários ministrados por ele nos EUA em 1970 e em 1971, nas universidades de Yale e Johns Hopkins. O pedido das universidades era que ele ministrasse uma disciplina sobre “a linguagem poética”. A partir desse mergulho na poética, que é o grande tema desenvolvido em sua carreira, descortinou-se à frente de Genette o caminho que ele deveria buscar em Figuras III: uma renovação da poética, em busca de uma teoria da narrativa.

 

A POÉTICA, AS POÉTICAS ou DA OBRA À MÁSCARA, DA MÁSCARA À MÁQUINA

As influências de Genette são muitas e das mais variadas: além de grande conhecedor da história da literatura francesa, ele leu de perto os clássicos da filosofia e da poesia gregas (com destaque para a Poética de Aristóteles), tem especial admiração pela literatura de Jorge Luis Borges, e bebe da fonte de Paul Valéry (1871–1945) e das ideias simbolistas e pós-românticas. Enquanto os românticos tinham em grande conta a ideia do artista e do gênio criador, propondo leituras em que a questão da autoria era central, Valéry refutava isso e defendia que a autoria, na verdade, se assemelha a uma máscara, e tudo que se precisa ler está na obra, que é uma “máquina de linguagem”.

Quanto ao simbolismo, Genette faz-se herdeiro da frase "A poesia remunera o defeito das línguas", de Stéphane Mallarmé (1842–1898). Pensando que a língua, em seu uso comum, é marcada pela arbitrariedade e convencionalidade, o que o poeta e o crítico entendem é que a criação narrativa é capaz de salvar a língua de seus defeitos por meio da poética. O fazer poético, pelo aspecto mimético de construir e reconstruir mundos, retira a língua das banalizações da fala.

Em Figuras III, as análises de Genette expulsam a ideia de pessoalidade, e tanto as personagens quanto o autor passam a ser entendidos como figuras do texto. A pessoa ou personagem que fala, fora ou dentro da obra, é encarada por ele como uma voz, uma máquina a serviço de contar uma história. É com este arcabouço que Genette pôde propor sua conceituação quase algébrica da narrativa.  A base da compreensão vertiginosa de Genette consiste em analisar o texto em três principais categorias (ou tipologias): história (eventos narrados cronologicamente); narrativa (o relato tal como escrito ou contado); e narração (relação entre a voz do narrador e o narratário).

 

Tabela com alguns dos conceitos desenvolvidos por Genette

Tabela com alguns dos conceitos desenvolvidos por Genette

 

A TRADUÇÃO [nas palavras da tradutora Ana Alencar]

O texto, sem dúvida, é complexo, mas a coerência, a generosidade e a honestidade intelectuais de Genette, que dá todos os detalhes dos assuntos que ele cita e trabalha, convidam seus leitores a aprender a ler, não sem prazer. Cada parágrafo da obra do autor poderia servir de base para uma aula ou mesmo para um curso inteiro de teoria literária. Para leitores que não tenham conhecimento de todas as referências, Genette deixa uma trilha de indicações e pistas que permitem aprofundar a experiência da leitura. A coerência da leitura de Genette vai além da terminologia e do método cuidadosamente transmitidos.

A tradução foi tão difícil quanto prazerosa. O processo teve início durante uma residência que fiz em Arles, na França, com bolsa do Centro Nacional do Livro para fazer a versão brasileira do Figuras III. Foram 3 meses em que vivi absolutamente focada nisso. Para a tradução dos conceitos de Genette, algumas obras de referência ajudaram, como o Dicionário de narratologia de Ana Cristina Lopes e Carlos Reis, publicado em Portugal pela Almedina. Mesmo assim, algumas expressões tiveram que ser reinventadas em português para esta edição, casos em que foi mantido o termo francês entre parênteses.

Agora, traduzir Proust foi o maior desafio da tradutora literária que sou. Optou-se por não usar nenhuma das traduções já existentes de Em busca do tempo perdido. Como a obra de Proust aparece recorrentemente e é a base para Genette construir sua teoria, lá se foram horas sobre fragmentos e parágrafos longuíssimos, sofisticados e de difícil tradução — mas valeu a pena.

 

A tradutora

A tradutora Ana Alencar

Ana Alencar é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Graduou-se em Letras Modernas na Université de Paris VII (1976), onde também fez seu mestrado na mesma área (1979). É doutora em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1988). Tem experiência na área de teoria literária, literatura francesa, literatura e psicanálise, com ênfase na semiologia francesa. Traduziu do francês obras de Victor Hugo (Notre-dame de Paris, Estação Liberdade), Alain Didier-Weill (Os três tempos da lei, Jorge Zahar) e Maurice Blanchot (Pena de morte, Imago). Também verteu ao francês livros de autores brasileiros, entre eles Utopia selvagem, de Darcy Ribeiro (Gallimard). 

Facebook


Rua Dona Elisa, 116 | 01155-030 | Barra Funda | São Paulo - SP
Tel.: (11) 3660-3180
© Copyright 2017 | Estação Liberdade ® Todos os Direitos Garantidos | Desenvolvido por Convert Publicidade