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Três perguntas para Francisco Maciel


Não adianta morrer é o segundo romance de Francisco Maciel publicado pela Estação Liberdade, depois de O primeiro dia do ano da peste, de 2001. O universo do livro é ancorado nas ruas do bairro do Estácio, no centro do Rio de Janeiro. Maia de Lacerda, Professor Quintino do Vale, Sampaio Ferraz, Haddock Lobo, Professor Higino — enveredando pelos botecos, pelas bocadas, pelos atalhos dos morros e pela multiplicidade de vozes de seus personagens, o Rio marginal e erudito de Maciel ganha vida e o leitor é mergulhado no coração da “cidade das balas perdidas, no país das oportunidades perdidas, no planeta das guerras pela paz”. Uma narrativa delirante e poderosa, cheia de referências intertextuais e de personagens marcantes.

Leia o trecho de abertura do livro abaixo e confira entrevista com o autor falando sobre o livro e sua trajetória nas letras no Rio de Janeiro:  

Não adianta morrer, romance de Francisco Maciel

Dafé está correndo pela Maia de Lacerda às duas e quinze da tarde, e vai morrer às duas e vinte e dois. Alto, olhos verdes, funkeiro pixaim louro oxigenado, ele podia ter sido o que quisesse na vida. Jogador de futebol. Segurança. Gigolô. Astro. Sempre sonhou brilhar, era diferente, estava em outra. Mas escolheu a parada errada. Agora está correndo pela Maia. Ilusão.

Ele pensa que está voando, mas não está. Passou os dois últimos dias trepando e cafungando. Dormiu pouco, comeu mal, bebeu demais. Está correndo pelo lado esquerdo da rua, pela calçada, os carros estacionados, as árvores, os postes. Ele quer alcançar a São Roberto. Acha que lá estará a salvo. É lá que mora a mulher que ele está comendo e ele diz que não quer nada com ela, mas é para lá que está correndo e nessas horas isso não ajuda nada, até atrapalha. Mas é para lá que ele quer ir. A casa da Mirtes, sua mãe, era um abrigo mais seguro, mas ele nem pensa nela.

Se pulasse o muro do Centro Espírita Bezerra de Menezes, podia ganhar algum tempo, pular o muro de trás, alcançar a São Carlos e descer pela escadaria até a São Roberto. Mas ele segue em frente.

Aqui só tem cavalo de três patas. Quem diz isso é o Guile Xangô, e o Guile Xangô é um cara legal, meio maluco e meio safo, tem emprego, endereço e carteira de identidade. Aqui é tudo coisa, indigente, todo mundo aqui saiu da cadeia. E isso é verdade: o difícil é encontrar alguém aqui que não pegou janela. Vivem escondendo o tempo de cadeia. Mas quando dão uns tecos e bebem ficam contando as glórias. Saíram de lá e não conseguiram nada. Emprego, respeito, dignidade. Ficam pelos pés-sujos enchendo a cara, filando branco e preto, sugando fiapos de vida besta entre os dentes. E arrotando que na cadeia tinham regalia. Por que não ficaram lá? Aqui fora eles não têm nem regalia nem respeito, e a galera só dá desprezo. Estão acabados. Saíram da janela e deram de cara no muro. Não existem. Não fazem nem sombra de tanto que não existem. Tudo cavalo de três patas, diz o Guile Xangô, e você sabe o que acontece  com um cavalo de três patas? Você sacrifica, mata.

 Capa de

O livro foi escrito ao longo de mais de uma década. E nesse tempo você morou no Estácio, em uma espécie de “autoexílio”. Como foi isso? Como foi sair de São Gonçalo e ir para o Estácio? E como foi voltar para São Gonçalo?

Uma resposta longa, até para eu me compreender. Nos anos de 1980, eu estava com poemas, contos e romances na gaveta. Na verdade, mais de mil páginas datilografadas e arrumadas em pastas de plástico, além de cadernos com esboços, anotações, projetos. Estava morando em São Gonçalo, na periferia de São Gonçalo, e trabalhava no Rio, na Editora Achiamé [editora anarquista fundada no Rio de Janeiro em 1978], que ficava na época na Rua 13 de Maio, número 13, 13º andar (se não me falha a memória, e ela, quando não inventa, falha mesmo), ao lado do Teatro Municipal.

Em 1994, o Robson lançou o Letralivre, revista de “Cultura Libertária, Arte e Literatura”, que durou até 2009. Escrevi para o Letralivre acredito que desde o primeiro número. O interessante é que eu tinha um grande prazer em escrever para o Letralivre. Mas chegou um dia em que perdi o tom e deixei de lado a colaboração. Nunca me senti anarquista ou marxista ou ideologista.

Eu queria ser publicado. Bem publicado. Em 1989, inscrevi meu livro Beirute e outros poemas capitais no concurso Carlos Drummond de Andrade do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro. Ganhei, vibrei: meu livro seria publicado e, depois dele, eu tiraria meus originais das pastas e despejaria no mercado minha grande obra. Não aconteceu nada. Depois de alguns anos de reclamação, recebi a grana, desvalorizada, em URV, ainda não era o Real.

Em 1995, ganhei o Concurso Literário Stanislaw Ponte Preta, da Secretaria Municipal de Cultura/Instituto Municipal de Arte e Cultura-RioArte, com a novela Na Beira do Rio. Começa assim: “Elias Gabriel sonha sempre com Copacabana. (Ele não está satisfeito com seu verdadeiro nome e, no começo deste dia, pretende se entender como Elias Gabriel.)” [O Elias Gabriel é o Aloísio Cesário adormecido.] A novela surgiu do assassinato de um jovem negro que testemunhei no centro de Alcântara, subúrbio de São Gonçalo, em 1994. Na Comissão Julgadora: Antonio Torres, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’Anna. Recebi o dinheiro do prêmio, com um detalhe: quase fui preso na agência do banco quando fui descontar o cheque: ou eu não era quem estava dizendo que era e, se fosse, não merecia aquela bufunfa toda. O texto foi publicado numa brochura de capa roxa, junto com quatro menções honrosas, entre elas “Nowhere Man”, de Nelson de Oliveira.

Em 1996, saí de São Gonçalo e fui morar numa hospedaria do Estácio. Na Royal Hospedagem, já levando O primeiro dia do ano da peste entre meus inéditos.

Em 1997, participei do Projeto Fábrica de Dramaturgia do Domingos Oliveira, no Planetário da Gávea. Mais de 200 inscritos, precisamente 214. Três temas básicos: violência policial, saúde pública, desemprego. O meu era o Flutuando (saúde pública) e participei como coautor de Corações em Desemprego com a Cristina Klein (que nunca mais vi).  Glock 9 tinha como autores José Luiz Vilhena, Luiz Henriques Neto e Lenita Plonczynski. O espetáculo estreou em outubro de 1998. Foi uma experiência poderosa.

Foi na Fábrica que conheci a Clarisse Fukelman, com quem trabalhei fazendo pesquisas para telenovelas da Globo e para eventos no Centro Cultural Banco do Brasil/Rio, entre eles uma exposição em homenagem ao Antonio Callado. Aprendi muito com ela, mais do que posso ou consigo dizer.

 Em 1999, ganhei o concurso (sempre os concursos!) Julia Mann e em 2001 o Angel Bojadsen publicou o romance O primeiro dia do ano da peste. Em “Entre dois mundos”, o texto premiado no Julia Mann, o Aloísio Cesário (ex-Elias Gabriel), depois de ser preso por olhar criminosamente o mar de Copacabana, sai de lá e vai para Jardim Catarina, na periferia de São Gonçalo. Esse, afinal, tem sido o meu poço e o meu pêndulo: São Gonçalo-Rio. Minha viagem é ser centro e periferia, rio e margem, essência e aparência, eu e outro, nó e nós. Não vejo saída ou porta ou chave. Só busca e caça, tentando aperfeiçoar a arte de deixar rastros e ao mesmo tempo apagar as pegadas. No Não adianta morrer eu me fixei no Estácio, mas até mesmo esse Estácio é pendular: vai e vem entre ficção e realidade. É um Estácio da mente ou de mente ou demente. O bairro de uma felicidade inventada.

Lançado este livro, vou me reinventar num novo texto. Quem sabe escrever um romance sobre o mar? Sempre indo e vindo. O mar sempre recomeçando. O poço é infinito.

 

Francisco Maciel recebe o Prêmio Minas Gerais
 Francisco Maciel recebeu o prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura por Não adianta morrer

O livro é cheio de referências literárias e filosóficas (algumas explícitas e algumas subliminares). Quem são suas grandes influências literárias ou heróis literários? Quem seriam os padrinhos literários do livro?

No poema “Brisa Marinha”, Mallarmé, na tradução de Augusto de Campos, afirma: “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros”. Eu não li todos os livros, mas todos os livros que li fazem parte da minha carne de escritor. É uma carne alegre, quase um carma feliz.

Milan Kundera, em Os testamentos traídos, opina que “a maior parte da produção romanesca de hoje [o livro é de 1993] é feita de romances fora da história do romance: confissões romanceadas, reportagens romanceadas, acertos de contas romanceadas, autobiografias romanceadas...” e por aí vai, “são perfeitamente consumíveis de manhã e perfeitamente descartáveis à noite”. E Kundera conclui: “Na minha opinião, as grandes obras só podem nascer inseridas na história de sua arte e participando dessa história. É apenas no interior da história que podemos apreender o que é novo e o que é repetitivo, o que é descoberta e o que é imitação, em outras palavras, apenas no interior da história uma obra pode existir como um valor que se pode discernir e apreciar. Nada me parece portanto mais horroroso para a arte do que a queda para fora de sua história, pois é a queda num caos em que os valores estéticos não são mais perceptíveis”.

É a opinião de um profissional da arte do romance, de um artista exigente. Mas o romance vem mudando tanto ao longo do tempo que não vislumbro qual será o seu formato no futuro. Só tenho uma certeza: a morte do romance vai coincidir com a morte do último leitor. Em Não adianta morrer está tudo o que as pessoas me ensinaram, e elas me ensinaram muitos truques de sobrevivência na selva da cidade, e tudo o que aprendi com a literatura, mas também com a música, a filosofia, a antropologia, o cinema, o jornalismo, enfim, com todas as mídias, artes e ofícios. No livro, as referências literárias fazem parte de um jogo de cartas entre o autor e o leitor, de um convite ao leitor para também ser autor do texto, de construir sua própria narrativa. Eu entrego, logo nas epígrafes, dois dos patronos ou padrinhos do romance. Mas existem muitos outros, e descobrir quem são eles faz parte do jogo. Não vou entregar. Não vou dedurar. Nem com delação premiada!

 

Sobre técnica literária: o livro tem um estilo quase impressionista passando pelo olhar e vozes de vários personagens, recursos que vêm aparecendo mais e mais na ficção contemporânea. Como foi construir essa narrativa desta forma? De que jeito isso ajudou a contar a história que você queria?

“Vão dizer que eu imitei o Marlon James”, pensei logo nas primeiras frases de Breve história de sete assassinatos: “Os mortos nunca param de falar. Talvez porque a morte de fato não seja o fim, só uma coisa parecida com ficar de castigo no colégio”.  O nosso Dafé está correndo pela Maia, e se espanta: “por que a calçada está subindo assim contra ele, virando um muro?” Sir Arthur George Jennings, empurrado de cinco metros de altura, manda: “e [você] ainda está lutando quando o chão se levanta e bate em você porque simplesmente cansou de esperar por sangue”. E lá no fim de sua fala, o Sir/narrador declara: “Então ele acorda e ainda está morto, mas não quer me dizer o seu nome”.

“Você foi antecipado posteriormente”, diria um colega de profissão mais bem sucedido.

“Não adianta correr: tem sempre alguém fazendo o que você já fez, e fazendo bem melhor”, diria o seu melhor amigo.

Li A Estrada Subterrânea (Colson Whitehead) e O Vendido (Paul Beatty) e me senti muito bem com o que eles fizeram, estão fazendo. Mas o romance do Marlon James me trouxe um sentimento de irmandade técnica.  Falando da técnica narrativa: cheguei a imaginar um possível leitor do livro contestando: “Mas esse Não adianta morrer não é romance coisa nenhuma! São só 47 contos enfileirados um atrás do outro como doentes na fila de um hospital em greve, no começo da madrugada, e sem ninguém distribuindo a senha.”

Não preciso mais temer isso: o Breve História do Marlon James está aí para provar que cada médico tem o seu diagnóstico, a sua receita, a sua letra. Afinal, o sol da literatura nasce para todos e a lua da leitura está sempre cheia.

Concluindo: no nosso Não adianta morrer não há uma trama central: são várias as tramas, as ações se entrechocam, podem surgir várias visões sobre a mesma ação e sobre o mesmo personagem. O tempo é fluido: passado, presente e futuro se entrelaçam, se anulam, se iluminam. Há narrativas na primeira e na terceira pessoa. Existe, sim, um narrador que tudo sabe, tudo vê e prevê, mas ele está oculto e pode ser qualquer um: talvez o leitor.

 

 

 

O autor

Francisco MacielFrancisco Maciel nasceu em São Gonçalo, Rio de Janeiro, em 1950. Começou a frequentar a escola aos seis anos de idade, para escapar dos trabalhos braçais que já fazia. Através de concurso, conseguiu ingressar num colégio de elite de Niterói no segundo grau. Na faculdade, começou a cursar jornalismo, mas desistiu no meio do caminho por se sentir “tolo demais e despreparado para a vida”. Pegou a mochila e rodou de carona pelo Brasil e outros lugares da América do Sul. Foi escritor precoce: desde os dez anos, escreve de forma obcecada e diligente.

Em 1997, venceu o Prêmio Julia Mann de Literatura, promovido pelo Goethe-Institut, com o conto “Entre dois mundos”, cujo título batizou a coletânea com os textos vencedores publicada em 2001 pela Estação Liberdade – que também editou o primeiro romance dele, O primeiro dia do ano da peste, no mesmo ano. Em 1998, teve um texto seu, Morto de paixão na Avenida Brasil, levado ao teatro por Domingos de Oliveira. Também ganhou a edição de 2012 do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Ficção, com uma versão de Não adianta morrer. Casado, Maciel vive hoje em São Gonçalo, para onde voltou após o “exílio” no Estácio.
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