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Lanamento e bate-papo: NO ADIANTA MORRER

Francisco Maciel lana seu novo romance na Travessa Botafogo junto com lvaro Costa e Silva. Leia trecho do livro e entrevista com o autor

Na quarta-feira, 18/10, a partir das 19h, Francisco Maciel lança NÃO ADIANTA MORRER. O local é a Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97). Junto com Francisco Maciel na ocasião estará o escritor e jornalista Álvaro Costa e Silva, para um bate-papo literário sobre NÃO ADIANTA MORRER, as representações do Rio de Janeiro na literatura e muito mais.

Compre o livro em nossa loja virtual: http://bit.ly/NãoAdiantaMorrer ou pelo site da Livraria da Travessa: http://bit.ly/NãoAdiantaMorrerTravessa  

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Francisco Maciel e Álvaro Costa e Silva

 

Leia um trecho do capítulo “Os Quatro Mandelas”, extraído de NÃO ADIANTA MORRER e, na sequência, algumas perguntas para Francisco Maciel.

NÃO ADIANTA MORRER, de Francisco Maciel

OS QUATRO MANDELAS

Os Quatro Mandelas estão sentados bebendo cerveja e conversando. Todos são negros, os cabelos brancos, todos altos, magros, bem conservados. Aquele ali é advogado e já foi presidente da escola de samba, é o que mais fala. Aquele foi sargento do Exército, mas tem jeito de general e todo mundo se dirige a ele como Comandante. Aquele foi polícia e é melhor não saber do seu passado. Aquele foi médico, é ainda. Todos os domingos bebem no bar do Luiz, trocam ideias e conferem as memórias como quem joga cartas. Eles não jogam.

Há um tempo eles estavam ali como estão agora e o Monstrinho entrou e ficou olhando para eles. O Monstrinho era safado e dizia o que tinha de dizer na cara de qualquer um. Parou no meio do bar, apontou para eles e gritou: “Estou vendo quatro Mandelas.” O Luiz saiu de detrás do balcão para expulsar o criador de caso. Eles falaram para o Luiz que estava tudo bem e mandaram botar uma cerveja para o Monstrinho.

Virou ritual. Todos os domingos o Monstrinho entra no bar do Luiz, abre os braços e se curva: “Meus Quatro Mandelas!” Depois bebe a cerveja dele e vai embora.

Quando os Quatro Mandelas ocupam a mesa central, todo domingo de manhã, parece que o bar do Luiz se transforma num centro espírita. Todo mundo que entra vai lá bater cabeça, beijar a mão, dar uma palavra, pedir um conselho. A maior parte do tempo eles ficam em silêncio, com aquelas caras misteriosas esculpidas pelo tempo, gravadas em madeira, não que sejam cara de pau, não é isso, mas é como se o tempo gravasse na cara de cada um deles uma espécie de máscara e as pessoas vissem no rosto, no ar, no aspecto deles, uma sabedoria antiga.

Não é madeira, é pedra, é como se eles fossem de pedra, é isso, como se eles fossem talhados numa pedra, e resistissem a tudo, ao vento, à chuva, ao próprio tempo, à pedra, como se o vento, o tempo e a chuva escorressem por eles e não deixassem marcas, só polissem a pedra. Eles nasceram pedra e estão lá, irmãos do mármore do tampo da mesa, permanentes, eternos, tradição.

O primeiro a chegar neles é Pardal Wenchell, que sempre fala da infância, do tempo passado, de outras terras, de tribos perdidas e, vez ou outra, depois de muita bebida, começa a falar em língua estranha, com a atenção reverente dos Mandelas. Só Pardal Wenchell consegue esse carinho, essa atenção, essa reverência de igual para igual.

(Monstrinho é outra coisa: encarna Exu e é tratado como um mensageiro, um moleque de recados, um carteiro, mas também com carinho.)

Seu Nonô, não. Tem quase a idade deles, mas não a consistência. Trata os Mandelas como um professor de música trata um sambista que só toca de ouvido. Traz o violão e encosta o bicho na mesa como um desafio. Faz parte do ritual. Pede uma rodada de cervejas para os Mandelas e um uísque para ele (mas não bebe). E aí começa a lição sobre a importância da arte da paciência.

Seu Nonô fala que é preciso aprender a ler música, que os músicos brasileiros só sabem tocar de ouvido, tirando Tom Jobim, discípulo mediano de Villa-Lobos, plagiador de Bach, e que os sambistas todos eram batuqueiros, onde já se viu juntar dez homens para fazer um samba-enredo melodicamente primário e poeticamente caótico? E Seu Nonô demonstra, cantando com conhecimento de causa, sem conseguir uma ruga na cara de pedra dos Mandelas.

Depois Seu Nonô tira a capa do violão e tenta tocar alguma coisa espanhola, as pernas abertas, o violão apoiado na perna esquerda, muita pose, e pouco resultado: “Meus dedos estão emperrados”, diz, passa o violão para os Mandelas, e está pronto para acompanhar qualquer samba batucando na caixa de fósforos. E era quase sempre assim.

 

 ALGUMAS PERGUNTAS PARA FRANCISCO MACIEL

Francisco Maciel em casa

 

Lendo o livro, e aludindo a uma clara agilidade narrativa, vem a vontade de saber um pouco mais sobre suas influências literárias. Há algumas citações e referências à cultura alemã. Qual a ligação da sua escrita com esta tradição literária? Não deverá ser fortuito o fato de você ter enviado texto para o prêmio literário Julia Mann, realizado pelo Goethe-Institut, em que um dos prêmios era uma viagem à Alemanha. Como foi esta experiência?

Foi no fim do século passado. Eu morava no Hospedagem Royal, na rua Estácio de Sá. Botei o ponto final no texto “Entre dois mundos” e desci para comemorar no bar do Nelson, na Sampaio Ferraz. Eu tinha certeza que ganharia o Julia Mann. Passava da meia noite e o Nelson estava esculachando um negro que pedia uma cachaça, fiado. Pedi um steinhäger para mim e outro para o negão. Ele bebeu de um só gole, passou as costas das mãos pela boca, me olhou fundo e mandou: “Você sabe que eu já estive na Alemanha?” Tremi de cima a baixo, me arrepiei que nem um porco espinho, parecia macumba. “Berlim? Frankfurt? Munique?”, perguntei torto, atordoado. O negão deu uma risada. “Ilha Grande. Prisão. Mais de vinte anos. A Alemanha. Lá onde o filho chora e a mãe não ouve. Onde se morre e Deus não vê”, ele disse. Contou muito mais. Duas ou três horas depois de brindes, risos e até lágrimas, voltei para a hospedaria e meu texto — recheado de referências a Rilke, Thomas Mann, Wim Wenders, Schopenhauer, Heidegger, Arendt, Kakfa, Brecht, Handke — recebeu aquele passe poderoso e virou um despacho na encruzilhada do mundo real e do mundo imaginário.  Ganhei o Julia Mann, visitei a terra de Goethe e Schiller, mas nos anos seguintes, fui, continuo sendo até hoje, um cidadão revoltado, supérfluo e cumprindo pena na Alemanha do preto-velho Nabor.

Hospedagem Royal, na rua Estácio de Sá

Como se deu o seu despertar para a literatura e para a escrita? Você diz que teve sorte de ter estudado em boa escola, apesar de origens bem modestas. Como veio a leitura?

Leio e escrevo desde que aprendi a ler e escrever, com cinco, seis anos. Lia de tudo e escrevia sobre o que lia, via, vivia.  Virou mania. Meu pai Altair abriu um bar em sociedade com meu tio Maciel (que era saxofonista, tinha uma banda, um conjunto, tocava na noite, amava Sinatra e Nat King Cole), minha mãe Osvaldina cozinhava e eu lavava pratos e copos em cima de um banquinho para alcançar a pia, tinha seis anos. Desci do banquinho e passei a servir no balcão e nas mesas. Trabalhei no bar dos seis aos 16 anos, na Covanca, São Gonçalo. Trabalhava e estudava, o bar foi uma dura escola, mas não fui moleque, perdi a rua, o jogo da infância. Meu pai decidiu empreender, virou promotor de shows com palanque e tudo, organizava festas juninas, uma figura popular, chegou a ser candidato a vereador.  Minha mãe e eu fomos tocando o bar, defendendo o caixa dos ataques do meu pai. Eu falsificava a assinatura dele nos cheques para pagar as contas, zerar as dívidas, fugir da falência. Quando terminei o primário, meu pai decidiu que estava de bom tamanho, tinha que ser bar sem escola.  Minha mãe e meu tio (que já não era sócio há um bom tempo) foram contra, mas meu pai conseguiu me atrasar uns dois anos.  Acabei fazendo o ginásio na Escola Industrial Henrique Lage, no Barreto, em Niterói, voltada para a formação de técnicos navais e outras especialidades para os estaleiros da região. Não era a minha praia: ficava mais tempo na biblioteca que nas oficinas. No último ano, acho que em 1966, participei de um concurso de redação (sobre a Paz) do Lions Club Internacional e venci. Fiz prova para continuar meus estudos no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, passei, mas, por causa do concurso do Lions, ganhei uma bolsa de estudos para o Centro Educacional de Niterói, uma escola experimental, de elite, onde fiquei três anos, dois e meio como interno. Parte da grana da bolsa ia para minha mãe. O bar faliu. O CEN tinha excelentes professores, uma biblioteca atualizada, recebia palestrantes de renome. Foi a primeira vez que pude me dedicar de forma integral à escrita e à leitura. Tinha um inconveniente: eu era o único preto na minha turma. Acho que tinha um outro, mas nunca nos falamos, ele já estava saindo. Ali, os anos de bar não me ajudaram em nada e a minha falta de traquejo social me fez mergulhar ainda mais fundo numa vida paralela, na literatura. É onde estou e de onde nunca saí.

 

O coração do livro são os vários personagens que transitam pelo tempo e pelo espaço da narrativa não-linear do romance. A narrativa circular, em que os personagens retornam quando menos se espera, é elaborada de que forma?

O romance tem muitas vozes e a decisão de dar voz aos personagens nasceu do encontro mediúnico com o preto-velho Nabor. Nunca me interessou a veracidade, a verossimilhança ou a coerência do que eles e elas contam e dizem. Aprendi que um fato tem muitas versões, que uma pessoa tem várias personas e que, para ser fiel aos personagens, era mais importante lhes dar autonomia do que lhes impor um sabe-tudo narrador onisciente. Vale o mesmo para a trama, para as tramas, para os dramas. Elas estão lá, as tramas, as intrigas, as ações, está lá o enredo, tudo à disposição do leitor cúmplice, de um leitor ideal que aceite de bom grado o convite para ser ele também o autor do romance. Por isso, na orelha, proponho o lance do carteado. Cada texto e cada personagem é uma carta no jogo de construção da narrativa através de uma leitura em liberdade. Relativa, mas ainda assim uma liberdade nesses nossos tempos cheios de rompantes e arreganhos totalitários.

 

Estácio de Sá, esquina com a Maia de Lacerda

 


Você é natural de São Gonçalo e ambienta o livro no bairro do Estácio. Algum motivo particular? E sobre os anos que você passou lá, como era um dia típico na vida de Francisco Maciel morando no Estácio e já pretendendo assumir a casaca de “homem de letras”? E escrita como profissão é jogo duro. Como você se organizava, e como continua fazendo? O que mudou desde que publicamos seu primeiro romance O primeiro dia do ano da peste, em 2001?

São Gonçalo faz parte do Grande Rio, é o segundo município mais populoso do estado, o 16º mais populoso do país (incluindo as capitais), a 3ª maior cidade não capital do Brasil. É uma cidade-dormitório à beira do Rio, dizem que está acordando, e, se literariamente não tem grande relevância, aparece em todos os meus textos, renitente. Pelo menos duas linhas de ônibus que a ligam à cidade maravilhosa têm ponto final ao lado da estação de metrô do Estácio. Sempre trabalhei no Rio. Vim morar no Estácio para me enturmar melhor e batalhar a publicação dos meus livros. A minha vivência no Estácio pode ser rastreada no Não adianta morrer, nunca confraternizei tanto, e não deixei de ler, mas passei grande parte do meu tempo ali lendo gente. Minha sobrevivência sempre esteve ligada à palavra: escrevendo para uma revista de pesca comercial, para uma gazeta maçônica, revisando teses, fazendo pesquisas para novelas globais e eventos culturais. Trabalhando de ghost writer: acho interessante essa atuação de escritor-fantasma, batalhando pelo pão, e o perigo é você se entregar tanto aos tais ditames da sobrevivência e acabar (aí vai uma inversão fácil) fantasma de escritor. Imagino que Brasília, com seus deputados e senadores, é a capital dos ghosts e seus romances fracassados.  Isso não rolou comigo, esse fantasma, esse fracasso, essa rasura. Mas também nunca pensei em viver da minha obra literária. A publicação do Peste, ao me livrar do ineditismo, me deu a coragem de dar a cara a tapa, bater de frente. Porque tem isso: até os 30 e poucos anos eu fui só poeta, trabalhando obsessivamente uns 40, 50 poemas. A escolha da poesia tinha tudo a ver com a minha parca sociabilidade, uma monstruosa timidez, uma recusa infantiloide em amadurecer, uma escravidão interior. Escrever o Peste foi meu salvo-conduto e publicá-lo a minha carta de alforria, meu habeas corpus. Meu visto de imigrante para entrar na terra prometida da literatura.  

 

Repercussão de O PRIMEIRO DIA DO ANO DA PESTE

 

Por motivos diversos, a Estação Liberdade ficou uns anos até publicar o seu Não adianta morrer. Inegável que nós editores às vezes deixamos os escritores numa expectativa angustiante, mas não é por sadismo, não... Fale um pouco dessa expectativa que tanto pressiona.

Trabalhei meia dúzia ou mais de anos como revisor/preparador de texto da Editora Achiamé, isso foi lá pelos anos 1980, 1990, que descansem em paz, e testemunhei com que grandes esperanças os escritores iniciantes, jovens e velhos, eles e elas, entregavam os seus originais nas mãos dos editores. Alguns eram cozinhados por dois ou três anos, e não eram servidos. Outros eram lançados com pompa e circunstância, e nada acontecia. Lembro de pelo menos dois que, contra todas as expectativas, esgotaram a primeira edição e, na segunda, bandearam para outro selo. Ter vivido isso não me trouxe nenhuma sabedoria, o que é lamentável, mas não me impede de sonhar que sou um autor de língua inglesa, com apoio total de dois editores, um robusto adiantamento para perpetrar sua obra em quatro anos com o auxílio luxuoso de uma equipe de três pesquisadores e uma turma afiada de pré-leitores profissionais, enfim, um sistema de produção de texto sem sadismos nem serendipismos. Um dia a gente acorda lá. Indo ao ponto: se o Não adianta morrer tivesse sido lançado em 2012 ou 2013, eu não estaria nessa angústia, nessa expectativa, nesse limbo. Mas não tenho nada a reclamar. O ano é 2017 e não outro, o trabalho está feito, os dados foram lançados, as coisas fazem sentido e, decididamente, não adianta morrer. 

 

NÃO ADIANTA MORRER, de Francisco Maciel

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