A editora Estação Liberdade inicia a edição da grande trilogia autobiográfica do Nobel de Literatura Kenzaburo Oe

Shisosetsu: palavra japonesa para designar romance autobiográfico. Se tem uma palavra que resume a obra de Kenzaburo Oe é esta. A atual obra não é exceção. Oe se supera na mescla de elementos ficcionais conjugados com peças da vida real, indo muito longe na transliteração para o romance de personagens existentes, inclusive em sua família mais próxima. Nada se cria e tudo se substitui.

Em elaborado jogo de espelhos, Oe traz à baila a persona de seu cunhado, o cineasta Juzo Itami (de Tampopo, os brutos também comem spaghetti, no título brasileiro), ora a de seu filho Hikari, ora a da irmã de Juzo Itami, com quem está casado há décadas, ora causos angariados em viagens internacionais. Provêm também da vida real seus entreveros com os yakuzas, os mafiosos japoneses, os agrupamentos direitistas que o assediam por suas posições pacifistas e antinacionalistas pelas quais se notabiliza num Japão em tentativa revisionista da constituição antibélica.

Também coloca em evidência com generosas doses de verve as sandices do mundo acadêmico, as mazelas do jornalismo à la paparazzi, os grupelhos da juventude à saída de Segunda Guerra Mundial.

Nada é completamente fictício, e nada é real por inteiro. A dosagem é fluida. A reflexão sobre o criar, seja na escrita, seja na música, e aqui paira, sereno, o filho -- mais uma vez a vida real se sobrepondo à romanceada. Ou o oposto... E em reverentes piscadelas à literatura universal aparecem os franceses de seus estudos, de Rabelais a René Char, assim como Thomas Mann, Blake e Eliot, este último definitivamente colega de cabeceira nas noites toquiotas.

Em introspeção derivada de histórico de vida inteira, Oe amarra seus protagonistas Goro, o cineasta amigo dado a todos os prazeres e finalmente suicida, e Kogito, o escritor de sucesso mas em desprestígio de público e de vendas, mediante um engenhoso artifício interposto que batiza Tagame, em analogia a uma espécie de besouro marinho, o que permitirá ao escritor manter a imensa admiração que tem pela figura de seu cunhado que decidiu partir para outra, privando-lhe assim de sua amizade, mas ao mesmo tempo preservando-a graças ao Tagame.

Oe lança nesta primeira parte de sua grande trilogia da idade madura um árduo grito sobre a "vulnerabilidade fundamental do homem", em seus próprios dizeres, e que ele remói a fundo para destrinchar as fronteiras abissais da amizade humana. 


Título: A substituição ou
As regras do Tagame

Autor: Kenzaburo Oe
Tradução: Jefferson José Teixeira
ISBN: 978-65-86068-56-6
Formato: 16 x 23 cm / 352 páginas
Preço: R$74,00




Sobre o autor 

Kenzaburo Oe nasceu em 1935, em Ose, vilarejo das florestas de Shikoku, a menor das quatro principais ilhas do Japão. Oe tinha seis anos quando estourou a Segunda Guerra Mundial, durante a qual seu pai morreria. Uma de suas avós era contadora de histórias e carregava assim os mitos e as tradições do clã Oe, impactando o jovem Kenzaburo.

Com a derrota do Japão na guerra, ocorreram enormes mudanças no país, inclusive onde cresceu Oe. Os alunos nas escolas passaram a receber uma educação diferente, aprendendo princípios ocidentalizados, ao que Oe manifestaria reservas. Aos dezoito anos, pegou pela primeira vez o trem até a capital do país e, um ano depois, estudava literatura francesa na Universidade de Tóquio. Através da influência do realismo grotesco de Rabelais, passou a reinterpretar a história de seu povoado e a sua própria.

Começou a escrever em 1957. Compôs um poderoso ensaio sobre o bombardeio atômico de Hiroshima e o terrível legado da catástrofe, além de uma extensa lista de ficção que se utiliza bastante do Japão pós-guerra para retratar uma geração marcada por tanta tragédia. Assume então uma posição pacifista e antimilitarista que marcaria fortemente sua atuação cívica.

A vida e a carreira literária de Oe entraram em crise com o nascimento de seu primeiro filho, Hikari, portador de uma deformidade craniana que lhe resultou em comprometimento cognitivo. Apesar disso e mesmo por causa disso, Oe adquiriu novo fôlego e nova perspectiva sobre a vida e a escrita, em que Hikari tomaria uma posição central.

No Brasil, já foram publicadas as obras Uma questão pessoal (2003), Jovens de um tempo novo, despertai (2006), 14 contos de Kenzaburo Oe (2011) e Morte na água (2021), todas pela Companhia das Letras.

Recebeu os mais importantes prêmios literários do Japão, incluindo o Akutagawa, o Tanizaki e o Yomiuri; em 1994 foi premiado com o Nobel de Literatura.

Atualmente vive com a mulher Yukari e o filho Hikari em Setagaya, bairro de artistas e intelectuais em Tóquio.




Comentários

Escreva um comentário