O MARINHEIRO QUE PERDEU AS GRAÇAS DO MAR



O marinheiro que perdeu as graças do mar explora partidas e permanências, perdas e ganhos, individualidade e abdicação desta, amor e ódio, violência e paz, explora o convite à vida em dinâmica que é o verão e a inação, a negatividade, a penumbra do inverno, estações que, aliás, intitulam as duas partes em que está dividido este livro. 午後の曳航 ou Gogo No Eiko, conforme o título em japonês, foi publicado originalmente em 1963, enquadrando-se a meio caminho da carreira de Yukio Mishima.

O marinheiro chama-se Ryuji Tsukazaki, a quem parece estar predestinado algum tipo de glória. Ele faz parte da tripulação do Rakuyo, navio cargueiro que o transporta ao porto de Santos, aqui no Brasil, e às sombrias aspirações que o atormentam. Mas não só ondulante é Ryuji: ele também aporta e é atraído pela terra firme, onde se lhe oferece uma vida muito diferente da marítima.

Yukio Mishima constrói uma engenhosa história com este personagem que trava diversas relações e é apresentado através de cada uma das perspectivas de seus interlocutores, fora a do narrador. Assim, o personagem e, por extensão, sua jornada acabam por ser multifacetados e não se deixam definir unilateralmente, dando aos leitores o que pensar e interpretar.



          


YUKIO MISHIMA

YUKIO MISHIMA, nascido Kimitake Hiraoka em Tóquio, em 1925, foi uma das mais populares personalidades das artes no Japão do século XX. Mishima foi romancista, poeta, crítico, ensaísta, dramaturgo e ator. Sua estreia na literatura se deu aos 19 anos, pouco antes de se graduar em direito na Universidade Imperial de Tóquio. Um pouco depois, com Confissões de uma máscara (1949) e Cores proibidas (1951), firmou-se como o grande talento artístico de sua geração. 

Mesclando influências ocidentais e orientais, explorando tabus temáticos, como a homossexualidade e o culto ao corpo masculino, e produzindo obsessivamente, a arte era, para Mishima, indissociável de suas ações. Cada vez mais crítico da ocidentalização do país no pós-guerra, levou seu nacionalismo ao extremo em 1970.

À frente de seu grupo paramilitar Tatenokai, invadiu um quartel do exército japonês em Tóquio buscando incitar um golpe de Estado que devolveria os poderes divinos ao Imperador. Sem obter a acolhida esperada, terminou seu discurso e cometeu seppuku, o tradicional suicídio ritualístico samurai, deixando perplexos seus milhões de leitores no Japão e no mundo.